ARTIGO

Brasil e China podem redesenhar a segurança alimentar global

Ao articular produção, tecnologia e sustentabilidade, Brasil e China podem influenciar padrões globais e criar um novo eixo de governança alimentar e energética.

Brasil e China estão cada vez mais próximos; entenda relação diplomática - Blog da Denise -
Brasil e China estão cada vez mais próximos; entenda relação diplomática - Blog da Denise -

*Por Frederico Machado - Gerente de uso da terra e agricultura sustentável do Instituto Clima e Sociedade (ICS)

Em um cenário de pressão crescente sobre os sistemas alimentares, impulsionado por mudanças climáticas, crescimento populacional, disputa por recursos naturais e incertezas geopolíticas (como a situação no Estreito de Hormuz), a cooperação entre Brasil e China se consolida como uma das articulações estratégicas do século 21. Mais do que uma relação comercial, trata-se de uma parceria com potencial para redefinir a produção, distribuição e consumo de alimentos. 

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A centralidade dessa agenda não é casual. A demanda por comida, água e energia renovável tende a crescer, especialmente na Ásia, enquanto os recursos naturais se tornam mais escassos. A segurança alimentar deixa de ser apenas um tema agrícola e passa a ocupar o centro da geopolítica.

Brasil e China se complementam nesse desafio. O Brasil se firmou como potência agrícola, capaz de expandir a produção. A China reúne demanda, tecnologia e capacidade de investimento para transformar cadeias produtivas. Essa complementaridade cria bases para um novo modelo de cooperação internacional, que combina escala, tecnologia e critérios socioambientais construídos pelo Sul Global.

A agenda já ganha contornos concretos. O 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030) sinaliza que segurança alimentar, modernização agrícola e cooperação Sul-Sul estarão no rol das prioridades estratégicas do país.

Temos observado o crescente entendimento sobre a necessidade de associar comércio bilateral à construção de cadeias capazes de promover mitigação, resiliência, adaptação e salvaguardas socioambientais. Surge então um ponto de tensão na relação entre os dois países: a necessidade de estruturas públicas mais robustas de transparência e rastreabilidade da produção agropecuária.

Segundo estudos recentes, parte relevante do risco de desmatamento nas cadeias que abastecem a China está no Brasil. Os chineses já avançam em metodologias para mensurar emissões agropecuárias da sua produção. Também cresce o debate sobre emissões de escopo 3, nas quais commodities importadas do Brasil poderão ajudar ou dificultar as metas climáticas da China.

No Brasil, a Moratória da Soja, implementada em 2006 para evitar o avanço da produção sobre a vegetação nativa da Amazônia e hoje, infelizmente, questionada na Justiça, demonstra que é possível alinhar expansão da produção e preservação, desde que haja governança, transparência e compromisso de mercado. Sua queda poderá dificultar o acesso a mercados internacionais. Entre outras manifestações, o governo americano acaba de balizar novas taxações citando a queda da Moratória e o desmatamento ilegal. O fim da moratória pode expor mais de 13 milhões de hectares de vegetação nativa ao risco de conversão agropecuária no bioma.

Voltando à cooperação Brasil-China, resultados já são observados em diversas áreas, como o lançamento de satélites para acompanhar desmatamento e queimadas (CBERS). Biocombustíveis sustentáveis são outro setor que pode abrir uma janela histórica de oportunidade ao agronegócio brasileiro. Os dois países podem ser referências mundiais em produção e demanda sustentáveis, alinhadas à agenda do clima.

Do lado brasileiro, no âmbito dos biocombustíveis, superados gargalos de transparência, rastreabilidade e protocolos produtivos alinhados à certificação internacional, avizinha-se um novo boom econômico, com potencial de superar os ciclos históricos de soja, carne, café e suco de laranja. Do lado chinês, os biocombustíveis serão fundamentais à descarbonização da navegação e da aviação. Já nos próximos 10 anos, a demanda por biocombustíveis na China poderá superar mais que o dobro do volume atual de etanol produzido no Brasil e nos EUA — que respondem por mais de 80% da produção global. Grandes oportunidades também para os óleos vegetais.

Ao articular produção, tecnologia e sustentabilidade, Brasil e China podem influenciar padrões globais e criar um novo eixo de governança alimentar e energética. Com o mundo fragmentado, essa coordenação pode reduzir a dependência de modelos definidos pelo Norte e abrir espaço para soluções adaptadas às economias emergentes. O desafio não é apenas ampliar a parceria, mas qualificá-la, o que exige visão estratégica, coordenação institucional e capacidade de transformar interesses convergentes em políticas e ações concretas.

Bem conduzida, a cooperação Brasil-China pode se tornar um dos pilares das seguranças alimentar e energética globais. Mais do que garantir oferta de alimentos e biocombustíveis, trata-se de definir como essa produção estará alinhada à agenda climática e quem terá voz na construção desse modelo.

 

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Por Opinião
postado em 19/07/2026 06:00 / atualizado em 19/07/2026 13:49
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