A Copa do Mundo se apresenta como moldura exata e oportuna para um jubileu que, pelo tempo que assinala e pelo momento em que se insere, retrata em alta fidelidade a sociedade que o festeja. Neste sábado, 4 de julho, os Estados Unidos completam 250 anos de vida independente e republicana. Não apenas se perfilam como o irmão mais velho da constelação de nações formadas nas Américas desde a chegada dos colonizadores europeus, nos últimos anos do século 15. Historicamente, o país nasceu e se consolidou como berço e farol de ideais de liberdade. Hoje na posição de principal potência econômica, militar e — naturalmente — política do globo, os herdeiros de George Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin se veem diante de questões e desafios cujo cerne é: qual caminho trilhar em um mundo em transformação profunda, com a hegemonia ensaiada no pós-Guerra Fria ameaçada pela ascensão da milenar civilização chinesa?
Sintomático que a sociedade estadunidense confronte essa encruzilhada sob o governo de um presidente que, por tudo o que representa — inclusive como empresário de sucesso no ramo imobiliário —, contrasta em escala exponencial com os chamados Pais Fundadores. Jefferson e Franklin, em especial, sintetizam a filiação gêmea da jovem república americana com as ideias e ideais do Iluminismo europeu. Não se trata de coincidência que, passada uma década da independência dos EUA, a Revolução Francesa de 1789 tenha triunfado sobre a monarquia absolutista. O símbolo imponente dessa afinidade uterina pode ser visto de longe por quem se aproxima de Nova York: a Estátua da Liberdade, presente da França republicana no centenário da irmã nascida no Novo Mundo.
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Ao longo de dois séculos e meio como nação de identidade própria, os EUA se afirmaram como a materialização dos sonhos que moveram os peregrinos puritanos, perseguidos na Inglaterra dos anos 1600, a cruzar o Atlântico a bordo do "Mayflower". Foi de Washington que veio o reconhecimento pioneiro às jovens nações independentes proclamadas na América do Sul, no início dos 1800, e, sob esse impulso, o presidente James Monroe enunciou sua doutrina anticolonial resumida no lema "A América para os americanos". Na metade do século seguinte, ao fim da Segunda Guerra Mundial, o país saiu vencedor e passou a disputar a hegemonia global com a hoje extinta União Soviética, socialista. Quatro décadas de Guerra Fria resultaram na sua afirmação como superpotência sem rival à altura.
Justamente quando essa condição parece em xeque, a Casa Branca é ocupada por um presidente que se elegeu — pela segunda vez, embora não consecutiva — com a promessa de "fazer a América grande novamente". Em um ano e meio, no segundo mandato, Donald Trump caçou e deportou imigrantes, fez capturar o presidente da Venezuela, iniciou um conflito no Oriente Médio e, paralelamente, se indispôs com os aliados europeus. Declarou uma guerra comercial sem fronteiras e interferiu sem disfarces em disputas eleitorais naquele que considera o "quintal" dos EUA — a América Latina.
Neste 4 de julho, com as atenções do mundo focalizadas na disputa esportiva que mais desperta paixões mundo afora, o país nascido como inspiração para sonhos de independência e justiça estará, mais do que nunca, no centro do palco. Disputas e diferenças à parte, em cada canto do globo haverá quem olhe para lá atento a uma indicação sobre o caminho que a superpotência escolherá: o de uma liderança iluminista, como a de 1776, ou o da preservação de um mando imperial assentado na onipotência militar.
