Oliver, bom dia, criança linda. Espero que esteja caminhando e brincando em campos floridos com Henry Borel e com Isabella Nardoni. Em um lugar de absoluta paz, onde o céu é feito de algodão-doce e o entardecer mais se parece com uma aquarela divina. Espero que esteja correndo entre um jardim de rosas. Que esteja absolutamente livre de toda a dor e de qualquer maldade. Quando li sobre a sua passagem aqui na Terra, menino, chorei. Como pode um "pai" espancar e matar o próprio filho? Depois, "justificar" à polícia que cometeu a atrocidade porque a criança não quis lhe dar "bom dia"... Um "pai", que dizia ser "missionário", que afirmava levar a palavra de Deus às pessoas.
E você, com apenas três aninhos, Oliver, nem sequer pôde se defender. Presenciou e foi vítima do que há de pior no ser humano. Teve o coração deslocado por tanto golpe, o fêmur partido ao meio, o crânio afundado. Não consigo nem mesmo conceber o horror que você experimentou ao ver o próprio "pai" sendo o seu algoz. Imagino que, em um primeiro momento, foi apossado pelo medo e pela incompreensão. Não posso pensar no que passou em sua mente até que perdesse a consciência e partisse deste mundo.
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Também não consigo imaginar o que Isabella sentiu quando o "pai" e a madrasta a pegaram pelos braços e, depois de furarem a rede de proteção da janela, lançaram-na ao vazio. Ou o que Henry sentiu ao ser espancado pelo padrasto até ter o fígado lacerado e sofrer hemorragia interna.
Sabe, pequeno Oliver? Nenhum pai, nenhum padrasto, nenhum adulto tem a licença sequer de levantar mão a uma criança. O que fizeram contigo foi uma covardia sem tamanho, uma monstruosidade sem-fim. Um pai deveria amar seu filho acima de qualquer coisa, protegê-lo, zelar pela segurança dele, envolvê-lo com carinho, dar-lhe amor imensurável. Ser o seu herói, não seu carrasco. Fazer com que ele sorria, não que chore. Ajudá-lo a construir uma vida, não destrui-la por achar que tem poder ou posse sobre um filho.
Em 2021, escrevi, neste mesmo espaço, uma carta a Henry Borel. Tudo o que desabafei no papel, dedicado a ele, serve também para você, pequeno Oliver. Uma criança, como você, deveria ter a chance de crescer, de ser feliz, de um dia tornar-se jovem, de se apaixonar, namorar, casar, ter filhos, envelhecer e ser avô. Deveria ter a chance de morrer bem velhinho, de preferência debaixo de uma coberta quente e cercado de muito amor. Mas todos os seus sonhos e planos foram ceifados em um ato de traição imperdoável. Espero que o peso da Justiça paire com todo o rigor sobre seu "pai". Mas creio que um dia ele terá que prestar contas perante a Deus e a você. Até lá, procure descansar e correr pelos campos cheios de beija-flores.
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