SOCIEDADE

'O Drama': a pior coisa que você fez define quem você é?

Segredo guardado desde a adolescência destrói casamento perfeito e levanta debate urgente: uma intenção do passado define quem você é hoje?

Em meio às atenções voltadas à final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha, aproveitei o fim de semana passado para assistir a um dos filmes mais discutidos do ano e que minha filha, Cecília, queria muito saber a minha opinião. O Drama, do diretor norueguês Kristoffer Borgli, chegou aos cinemas cercado de expectativa e voltou ao centro dos debates depois de estrear no streaming. O motivo fica claro logo nos primeiros minutos. O enredo parte de uma história aparentemente comum para discutir culpa, perdão e os limites do julgamento moral.

A premissa é simples. Um casal jovem, bem-sucedido e prestes a se casar vive os preparativos da cerimônia até que a noiva revela um segredo enterrado havia anos. Aos 15 anos, ela planejou um ataque à escola onde estudava. Desistiu antes de colocar o plano em prática, mas a confissão basta para desmontar a relação. O passado, que parecia encerrado, invade o presente de forma devastadora.

O romance, então, dá lugar a um suspense psicológico sustentado mais pelas consequências da revelação do que pelos fatos. Afinal, até que ponto conhecemos quem está ao nosso lado? Uma pessoa pode ser definida para sempre por aquilo que pensou ou quase fez na adolescência? Existe espaço para reconstrução? A mentira, ou a omissão da verdade, é inevitável para a sobrevivência conjugal?

A repercussão do filme nos Estados Unidos e na Europa mostra o tamanho da ferida em que ele toca. Familiares de vítimas de massacres em escolas criticaram o uso do tema como motor de uma comédia de humor ácido. A reação faz sentido. Transformar tragédias dessa dimensão em elemento narrativo exige um cuidado que, em vários momentos, soa deliberadamente como provocação.

Mesmo assim, o interesse do filme não está apenas no episódio do passado da protagonista. O foco recai sobre quem a cerca. Como nenhum crime foi cometido, não existe investigação policial nem tribunal. Ninguém sabia até a revelação em uma confraternização regada a vinhos. A partir daí, o julgamento começa. Parte do futuro marido e dos amigos. É justamente aí que a história ganha força. A noiva passa a carregar um rótulo do qual parece impossível escapar, enquanto os demais personagens convivem tranquilamente com as próprias contradições. Mentem, traem, manipulam e agem por conveniência. Nada disso, porém, desperta a mesma indignação. A única pessoa impedida de seguir em frente é quem nunca chegou a executar o pior ato da vida.

De fato, o filme não entrega tudo o que prometeu. Fala menos sobre violência do que sobre nós. Trata sobre o tribunal ético em que vivemos, a rapidez com que julgamos, a facilidade com que esquecemos nossas próprias incoerências e a dificuldade de aceitar que pessoas mudam. A verdade, isolada do contexto, nem sempre liberta. Às vezes, apenas destrói aquilo que levou anos para ser construído.

E a resposta para a pergunta "Qual a pior coisa que você fez na sua vida?" é muito difícil de ser escutada e entendida.

 

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