
Crítica // O drama ★★★★
Diretor de filmes instigantes como O homem dos sonhos (com Nicolas Cage) e Doente de mim mesma (destacado em Cannes, há quatro anos), o norueguês Kristoffer Borgli salpica algo do caldo escandinavo no novo longa O drama, encabeçado pelos astros Robert Pattinson e Zendaya. Um poster do longa de Ingmar Bergman A paixão de Ana (1969) — sobre um instável homem que depara com a personagem de Liv Ullmann, abalada pelas mortes de filho e marido em acidente — está disposto na sala de Charlie (Pattinson), em O drama.
Enquanto o dinamarquês Joaquim Trier adoçou a pílula de amargor nas relações humanas, no recente vencedor do Oscar Valor sentimental, e, vindo da Noruega, Dag Johan Haugerud venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim, os escandinavos seguem a expressiva renovação em cinema, (indireta) no caso de O drama, por se tratar de uma produção norte-americana. Perturbados, e dominados pelo controle de formalidades, o casal Charlie e Emma (Zendaya) se prepara para a cerimônia de seu casamento. No processo, eles contam com o testemunho de seus amigos Rachel (Alana Haim, de Licorice Pizza) e Mike (Mamoudou Athie). Numa atitude impensada, de se relatar, numa mesa de celebração, o pior gesto de cada um, todos acabam ilhados num dilema que põe à prova tanto a cumplicidade do casal central quanto filtros sociais que norteiam empatia e boa convivência.
Tão em voga nas redes sociais, os chamados julgamentos recairão sobre Emma (Zendaya que, em cena, se multiplica entre amável e surpreendente), com apoio da atriz Jordyn Curet, que representa a versão jovem de Emma, a postos para tentar justificar o injustificável. O climão pré-casamento vem a minar relações, e, sim, no plural, antes bem estabelecidas. Poucos seriam capazes de compactuar, ou ser complacente, com o desandar da boa vibe antes impressa por Emma. A lógica de Charlie vem desestabilizada pelo misto de emoções e do passado em que abusou da condição de ser "um crush" de Emma.
No desenvolvimento de uma linguagem entre o casal, o cineasta abraça o tom e os rituais de encenação tão corriqueiros entre os sucessores da geração Y. Há referências diretas a cyberbullying, ao discurso Bob Geldof para a autoria do hit I don´t like mondays e o filme ainda examina parte do clássico, de Loius Malle, Lacombe Lucien (1974), detido no período da resistência francesa e no qual um jovem opta por fortalecer o nazismo. Para fazer valer graça, Borgli ainda brinca com a existência de uma suposta escritora, Harper Elison, responsável pelo best-seller O estrago.
Acompanhar as confidências do casal, que transita entre o bonitinho e o peculiar, deixa o espectador com instinto voyeurístico afiado. Com que num trauma, o diretor e roteirista reveste a narrativa com gatilhos altamente eficientes (no mesmo estilo do efeito chiclete daquela música que você tanto odeia). Volúpia e lascívia (que deram trabalho ao personagem de Pattinson, no recente, Morra, amor) não fazem cócegas ao que se presencia em O drama. A preparação dos votos, a serem oficializados na cerimônia, titubeia.
Apartados do mar de rosas, o casal suprime atos de compreensão, e se descola da admiração mútua que, antes, investia em confiança, gentileza e empatia. Distanciado da noiva, numa estranha realidade (isso depois do julgamento que ambos fazem de uma DJ, aparentemente, inofensiva), precedida pela catarse, em vômitos, da pretendente, Charlie parece dar passos rumo à forca, quando segue para a desconfortável sessão de fotos dos preparativos da festa. Quem coloca o dedo na ferida, aliás, é a anônima fotógrafa do evento: "sorriam (para as fotos), como se estivessem sorrindo na vida real". O pior (para deleite de quem gosta de humor particular), contudo, ainda está por vir, uma vez que entrará em cena Misha (feita por Hailey Gates, do sucesso Marty Supreme). Nada tão ruim que não possa piorar.
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