
A memória, disse o poeta chileno Raúl Zurita, é a única coisa que temos. Sendo assim, para 57 milhões de pessoas no mundo, não resta nada. Todos os anos, 10 milhões perdem essa bagagem; no Brasil, é a realidade de cerca de 8% dos adultos com mais de 60 anos. A demência rouba o passado de seus pacientes e o presente de familiares e cuidadores. Em um mundo envelhecendo vertiginosamente, é desolador pensar que, mesmo com alguns avanços, na prática, há pouquíssimo o que se fazer.
No início de 2010, o então presidente norte-americano Barack Obama anunciou a "era do cérebro" com um projeto de US$ 4 bilhões (R$ 20,3 bilhões) para financiar pesquisa de base e experimentos capazes de desvendar o funcionamento do órgão mais enigmático do corpo. Desde então, cientistas alcançaram feitos que seriam impossíveis sem o investimento público e privado massivo, como a reconstrução tridimensional em altíssima resolução do tecido cerebral humano.
No campo da aplicação prática, houve avanços significativos, principalmente em uma área fundamental para pacientes com lesões medulares: a interface cérebro-máquina. Há cada vez mais relatos científicos de pessoas que recuperam movimentos graças a implantes neurais, também promissores para a doença de Parkinson, uma enfermidade neurodegenerativa com prevalência global estimada em 10 milhões.
Mas uma década e meia é muito pouco para se exigir medidas efetivas contra a demência, incluindo o Alzheimer, que responde por mais de 60% dos casos. Não só nos laboratórios estadunidenses, mas em centros de pesquisa de todos os continentes há cientistas empenhados em conhecer as causas e os mecanismos capazes de frear essa deterioração lenta e devastadora da cognição humana.
Há até pouco tempo, os cientistas concentravam-se em novas moléculas que evitam a formação de placas beta-amiloide. Essa é uma das características mais conhecidas da doença neurodegenerativa: o excesso da proteína forma aglomerados duros, que vão tomando o lugar dos neurônios e destruindo os tecidos cerebrais. A maioria dos laboratórios apostou nessa frente.
Porém, quando testadas em humanos, uma a uma, as drogas baseadas na chamada hipótese da cascata amiloide falharam. Dois medicamentos com esse mecanismos chegaram ao mercado: lecanemabe e donanemabe. Além do altíssimo custo, contudo, são limitados a pacientes no estágio inicial, os benefícios mostraram-se modestos e há efeitos colaterais importantes, como edema e hemorragia no cérebro.
Com poucas opções terapêuticas capazes de mudar o curso da doença, recentemente a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou novas diretrizes sobre a redução do risco de Alzheimer. Baseado em evidências científicas, o organismo afirma que 45% dos casos poderiam ser evitados ou, ao menos, ter evolução retardada, com modificação em fatores de risco. Tabagismo, consumo de álcool, isolamento social, inatividade física, poluição do ar e doenças como hipertensão e diabetes 2 são alguns deles.
Ainda não se sabe como os países usarão essas informações para aprimorar políticas públicas de saúde e bem-estar contemplando, agora, o enfrentamento às demências. Mas se, de fato, o controle de fatores de risco pode cortar quase na metade a prevalência de Alzheimer, medidas nesse sentido deveriam ser urgentes. Ou então, 150 milhões de pessoas perderão a única coisa que têm até 2050. Esse é o número estimado de casos pela OMS para os próximos 25 anos.
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