ARTIGO

Olhos destreinados e um brasiliense extraordinário

Fui incapaz de ver um brasiliense notável nas apresentações comemorativas da Orquestra Criança Cidadã (OCC). E você, o que anda não vendo por aí?

Orquestra Criança Cidadã  -  (crédito: Divulgação )
Orquestra Criança Cidadã - (crédito: Divulgação )

Recentemente, fui convidada para conhecer os bastidores de um projeto social do Recife chamado Orquestra Criança Cidadã (OCC). Já tinha visto o resultado desse trabalho da forma mais incrível possível, quando acompanhei o evento Concertos pela Paz, há três anos, e a orquestra fez apresentações no Vaticano. Desta vez, o convite era para acompanhar a celebração dos 20 anos da OCC. Tem matéria sobre isso hoje na Revista do Correio. 

Mas aqui, neste espaço, onde cabe mais reflexão, gostaria de falar sobre algo que me surpreendeu. Mais pela ausência do que pela presença, pois só me dei conta depois. A notícia passou na minha cara e eu não vi. Lembrei-me de imediato do querido amigo Hermenegildo Portela, com quem trabalhei no jornal Tabloide Esportivo, que adorava Gabriel Garcia Marques, um exímio na arte de observar. Dizia: o jornalista precisa encarar os fatos de frente, sentindo a vibração de cada acontecimento e a surpresa do cotidiano.

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Também lembrei de um texto chamado Vista Cansada, do Otto Lara Rezende: "... O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio".

Fui incapaz de ver um brasiliense notável nas apresentações comemorativas da OCC. Trata-se de Ayrton Pisco, um violinista brasileiro e membro efetivo da Orquestra Sinfônica de Kansas City. Foi bolsista residente da Filarmônica de Los Angeles e tem mestrado em música pela Universidade de Yale. Ele é filho de músicos e começou sua trajetória no violino aos 3 anos em Brasília.

Em 2009, quando Ayrton tinha 14 anos, o Correio já havia contado a história dele, que já impressionava pelo talento precoce. Pois bem. Ayrton tem uma trajetória de sucesso mundo afora que nem cabe nestas linhas, tamanhas as conquistas. Mas o fato é que eu não o vi. Logo eu que sempre procuro um ângulo, um pedaço de Brasília em cada canto que vou. Há dias me condeno pelo lapso de não ver. Será a vista cansada?

O jornalista não pode se dar ao luxo de não ver. De banalizar o olhar, de só enxergar o pronto, o visível, o imediato. Uma das missões dessa profissão tão incrível é surpreender o leitor, entregar a ele o diferente, o extraordinário que não está exposto. É essa a parte mais bacana do nosso ofício. Nesse mundo de vício em telas, é urgente treinar nosso olhar para o detalhe interessante que passa despercebido, ouvir mais profundamente e descobrir que o mundo não está todinho naquele feed inesgotável de vida igual, repetida e enfadonha. 

O que vi na Orquestra Criança Cidadã, as pessoas que entrevistei, as apresentações a que assisti valem cada linha que escrevi na Revista do Correio, e tudo me emocionou muitíssimo. Contei uma história linda, mas deixei de ver um brasiliense extraordinário. E você, o que anda não vendo por aí? 

 

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postado em 02/08/2026 06:01
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