Opinião

O craque não pode ser o técnico

Durante décadas, o futebol brasileiro discutiu se os treinadores do país eram capazes de acompanhar a qualidade dos jogadores. Nas últimas Copas, a pergunta mudou de lado.

Pia Sundhage e Carlo Ancelotti -  (crédito: Pedro UGARTE / AFP - Patrick Hamilton/AFP)
Pia Sundhage e Carlo Ancelotti - (crédito: Pedro UGARTE / AFP - Patrick Hamilton/AFP)

Há um paralelo pouco explorado entre as duas últimas participações do Brasil na Copa do Mundo. Em 2023, na Austrália e na Nova Zelândia, a Seleção feminina, comandada à época pela sueca Pia Sundhage, foi eliminada pela Jamaica ainda na fase de grupos após o empate sem gols na última rodada. O time verde-amarelo não caía tão cedo em um Mundial desde 1995.

Três anos depois, foi a vez da Seleção masculina, dirigida pelo italiano Carlo Ancelotti, dar adeus nas oitavas de final no Canadá, Estados Unidos e México ao perder por 2 x 1 para a Noruega. A eliminação mais precoce desde a Copa da Itália, em 1990.

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Os paralelos continuam. Pia chegou ao Brasil depois de conquistar duas medalhas de ouro olímpicas pelos Estados Unidos em Pequim-2008 e em Londres-2012, uma prata com a Suécia no Rio-2016 e um vice-campeonato mundial em 2011. Ancelotti desembarcou como o técnico mais vencedor da Liga dos Campeões, com cinco títulos, dois pelo Milan e três com o Real Madrid; e o único campeão das cinco principais ligas nacionais da Europa: Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano. Nenhum deles chegou perto do que se esperava.

A tentação é ceder ao pecado da xenofobia e concluir que técnicos estrangeiros não funcionam na Seleção Brasileira. Longe disso! Além de preconceituosa, a explicação é simplista. Talvez a pergunta correta seja outra: por que dois dos treinadores mais respeitados do futebol mundial encontraram exatamente o mesmo limite em duas Copas do Mundo disputadas em universos totalmente diferentes?

Os dois herdaram de Oswaldo Alvarez, o Vadão, e de Tite, respectivamente, seleções em transição. Pia administrou a reta final da carreira de Marta ao levá-la à Copa de 2023. Ancelotti encontrou Neymar distante do auge. Mesmo assim, o convocou para ir à América do Norte neste ano. Ambos conviveram com o peso de gerenciar os maiores ídolos do país e terminaram as respectivas Copas com equipes de pouca criatividade ofensiva, sem uma identidade clara e carentes da melhor versão dos donos da camisa 10.

Há, porém, uma coincidência ainda mais reveladora. Durante décadas, o Brasil acostumou-se a produzir jogadores capazes de decidir partidas acima de qualquer sistema tático. Eles e elas desatavam nós. Os treinadores eram importantes, mas o talento frequentemente se impunha às circunstâncias.

Nas duas últimas Copas, a lógica se inverteu. Pela primeira vez em muito tempo, a esperança esteve mais no banco de reservas do que dentro de campo. A expectativa era de que Pia Sundhage e Carlo Ancelotti reorganizassem seleções que já não contavam com uma geração capaz de desequilibrar como tantas outras fizeram no passado.

Nenhum deles conseguiu. Não por falta de competência. Os currículos de Pia Sundhage e de Carlo Ancelotti continuam incontestáveis. A Seleção feminina optou pela mudança. Iniciou uma nova era com Arthur Elias. O ciclo para a Copa do Mundo de 2027 no Brasil tem a conquista de uma Copa América pelo caminho contra a Colômbia, em 2025, com direito a gol decisivo de Marta no tempo regulamentar antes do triunfo nos pênaltis.

A masculina seguirá rumo à Copa de 2030 sob a batuta de Ancelotti. O tempo dirá se o italiano conseguirá escrever um capítulo diferente. Ao contrário de Arthur Elias, ele não contará mais com Neymar, Ele anunciou a aposentadoria da Seleção.

As duas experiências recentes com Pia e Ancelotti permitem uma reflexão. Durante décadas, o futebol brasileiro discutiu se os treinadores do país eram capazes de acompanhar a qualidade dos jogadores. Nas últimas Copas, a pergunta mudou de lado.

Passou-se a esperar da área técnica a compensação daquilo que, durante gerações, nasceu naturalmente em campo. A ilusão nunca esteve na cor do passaporte dos treinadores, mas na expectativa de que a prancheta substituísse o talento. O craque não pode ser o técnico.

 

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MP
postado em 01/08/2026 05:00
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