
Rudyard Rios — Juiz de paz do TJDFT
A cada quatro anos, o Brasil vive um ritual conhecido, as ruas ganham novas cores, os encontros mudam de horário, desconhecidos se abraçam diante da televisão e, por algumas semanas, o país inteiro parece compartilhar um mesmo objetivo: vencer.
No futebol, essa lógica faz todo sentido, o jogo existe para definir quem avança e quem fica pelo caminho. Há um adversário, um placar e uma taça, cada equipe procura explorar o erro da outra, o sucesso de um depende, inevitavelmente, do fracasso do outro.
Quando a Seleção é eliminada, multiplicam-se as análises. Faltou organização, houve falhas defensivas, escolhas equivocadas. O esporte aceita esse tipo de leitura porque sua natureza é competitiva. No fim da partida, alguém vence e alguém perde, o problema começa quando essa lógica atravessa a porta de casa.
Sem perceber, muitos casais passam a viver o casamento como se disputassem uma Copa do Mundo permanente. As conversas deixam de ser espaços de encontro e se transformam em arenas, a preocupação já não é compreender o outro, mas convencê-lo, o objetivo deixa de ser resolver o conflito e passa a ser vencer a discussão. Cada argumento vale como um gol, cada erro do parceiro é comemorado como prova de que se estava certo, cada pedido de desculpas parece uma rendição.
Há muitos anos, Rubem Alves recorreu a uma metáfora que continua surpreendentemente atual. Ele dizia que alguns relacionamentos se parecem com uma partida de tênis, enquanto outros lembram um jogo de frescobol. No tênis, cada jogador procura dificultar a devolução da bola. Um golpe perfeito é justamente aquele que o adversário não consegue responder, o ponto nasce da incapacidade do outro. No frescobol, acontece exatamente o contrário. O desafio consiste em manter a bola no ar, cada jogador procura devolvê-la da melhor maneira possível para que o outro consiga continuar. A beleza do jogo não está em derrotar quem está à sua frente, mas em construir, juntos, uma partida que dure o máximo possível. Essa talvez seja uma das imagens mais felizes para compreender o casamento.
O casamento não foi pensado para produzir vencedores individuais, mas, sim, para formar uma equipe. Essa diferença parece simples, mas altera completamente a forma de enfrentar os conflitos. Quando duas pessoas se enxergam como adversárias, toda divergência representa uma oportunidade de vencer. Quando se reconhecem como parceiras, toda divergência passa a ser um problema comum que precisa ser resolvido.
É curioso perceber que o direito de família também caminhou nessa direção. Durante muito tempo, o casamento foi visto quase exclusivamente como um contrato, cercado de deveres e formalidades. Hoje, embora seus efeitos jurídicos permaneçam relevantes, ele é compreendido como uma comunidade de vida, fundada na cooperação, na solidariedade e na responsabilidade recíproca. Não se trata apenas de dividir patrimônio, mas de compartilhar a existência.
Essa mudança jurídica reflete uma compreensão mais profunda da própria condição humana. As relações mais importantes da vida não sobrevivem porque alguém vence mais discussões, sobrevivem porque as pessoas aprendem a preservar aquilo que existe entre elas.
No esporte, existe um detalhe que raramente recebe atenção, quando termina a partida, os jogadores trocam de camisa, cumprimentam-se, e cada equipe segue seu caminho. O vínculo termina junto com o apito final, no casamento, não há apito. A conversa interrompida hoje reaparece amanhã, a ironia dita por impulso permanece na memória, a humilhação não desaparece com o encerramento da discussão. Diferentemente do futebol, o relacionamento continua depois do placar.
Talvez por isso, o casamento tenha mais a aprender com o frescobol do que com qualquer campeonato. O verdadeiro êxito não está em marcar mais pontos, mas em desenvolver a delicada capacidade de devolver a bola de um jeito que o outro ainda consiga alcançá-la. Afinal, algumas partidas são feitas para revelar quem é o melhor. Outras, muito mais importantes, existem para lembrar que ninguém chega longe jogando sozinho.

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