ARTIGO

Amamentação na era das redes digitais: informação confiável ainda é o melhor apoio

Neste Agosto Dourado, a principal mensagem permanece atual: amamentar não precisa ser perfeito, mas precisa ser apoiado

; -  (crédito: freepik)
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Mariana Palhares Temerpediatra neonatologista e responsável técnica do Banco de Leite do Hospital Anchieta

 

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Durante muito tempo, os mitos sobre a amamentação eram passados de geração em geração. Havia quem dissesse que existia "leite fraco", que alguns alimentos precisavam ser proibidos ou que o bebê chorava porque o leite materno não sustentava. Hoje, muitas dessas crenças perderam força graças ao avanço da ciência. Em compensação, surgiram novos desafios: as redes sociais transformaram opiniões em verdades, multiplicaram fórmulas prontas e criaram uma enxurrada de informações que nem sempre ajudam quem mais precisa de acolhimento.

Ao mesmo tempo, a própria sociedade mudou. Famílias homoafetivas, por exemplo, vêm ampliando o debate sobre diferentes possibilidades de amamentação e de construção do vínculo com o bebê, mostrando que maternidade e cuidado podem assumir múltiplas formas. O problema é que, em meio a tantas novidades, informação correta e desinformação passaram a disputar espaço na mesma velocidade.

Neste Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre o aleitamento materno, essa reflexão ganha ainda mais importância. O tema da Semana Mundial da Amamentação de 2026, "Amamentação para um começo de vida sustentável: fortaleça o que funciona", faz um convite simples: voltar o olhar para aquilo que realmente produz resultados. Em vez de buscar soluções milagrosas ou seguir tendências que viralizam diariamente, o caminho continua sendo o manejo adequado, o acompanhamento profissional e uma rede de apoio consistente.

Na prática clínica, os efeitos da desinformação aparecem diariamente. É comum atender mães convencidas de que produzem "leite fraco" porque assistiram a um vídeo dizendo que o leite deveria ser mais espesso ou amarelado. Outras interrompem a amamentação após ler listas de alimentos supostamente proibidos, sem qualquer respaldo científico. Há ainda quem invista em chás, suplementos ou equipamentos anunciados como milagrosos, quando, na maioria das vezes, uma simples correção da pega ou da posição do bebê seria suficiente para resolver a dificuldade.

Do outro lado dessas crenças, também vale reforçar o que a evidência confirma: a produção de leite funciona por demanda, ou seja, quanto mais o bebê mama, mais leite o corpo produz. Não há incompatibilidade entre amamentar e voltar ao trabalho, desde que a rotina inclua ordenha e armazenamento adequados. E dor ou fissura geralmente sinalizam ajuste de pega, não motivo para interromper a amamentação. Reconhecer essas verdades é tão importante quanto desmontar os mitos.

Cada mãe e cada bebê vivem uma experiência única. Por isso, nenhuma orientação recebida pela internet pode substituir uma avaliação individualizada feita por um profissional capacitado.

Diante da enorme oferta de conteúdo, uma pergunta simples pode ajudar: quem está fornecendo essa informação? Perfis de profissionais habilitados, sociedades médicas e bancos de leite humano costumam oferecer orientações baseadas em evidências. Já promessas de resultados imediatos, discursos alarmistas ou recomendações acompanhadas da venda de produtos merecem cautela.

O que realmente sustenta a amamentação dificilmente se torna viral. É o trabalho cotidiano desenvolvido nos consultórios, maternidades e bancos de leite, aliado ao apoio do parceiro, da família e da comunidade. Vale também para realidades que ainda aparecem pouco nas redes, mas já fazem parte do cotidiano da assistência, como a indução da lactação em casais homoafetivos ou outras formas de fortalecer o vínculo entre bebê e família. Quanto mais essas experiências forem tratadas com naturalidade, menos espaço haverá para julgamentos e mais famílias se sentirão acolhidas para buscar ajuda.

Neste Agosto Dourado, a principal mensagem permanece atual: amamentar não precisa ser perfeito, mas precisa ser apoiado. Antes de seguir qualquer orientação que circula nas redes sociais, vale conferir sua origem. E, sempre que houver dúvidas, buscar quem realmente pode fazer a diferença: um profissional preparado para cuidar daquela mãe e daquele bebê, considerando suas necessidades, sua história e sua realidade.

 

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Por Opinião
postado em 04/08/2026 05:00
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