Artigo

Mitos e verdades da diplomacia na era da desinformação

A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. Os ataques recentes de governantes de turno de países amigos a instituições democráticas brasileiras ilustram a dimensão desse desafio

; -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
; - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Mauro Vieiraministro das Relações Exteriores

O recurso à desinformação em massa e ao uso dos algoritmos e das redes sociais como armas a serviço do extremismo político é um desafio persistente para os regimes democráticos e para o exercício da política, tanto no plano interno quanto externo. Esse fenômeno tem em Giuliano da Empoli um dos mais atentos observadores, primeiramente na obra Os engenheiros do caos e, mais recentemente, em A hora dos predadores. A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. 

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Os ataques recentes de governantes de turno de países amigos a instituições democráticas brasileiras, e não somente à Presidência da República e ao Executivo, mas também ao Poder Judiciário, ilustram a dimensão desse desafio para a diplomacia e para a sociedade brasileira em geral. Trata-se de comportamentos grosseiros e sem precedentes de líderes estrangeiros, com ataques frontais à nossa soberania e ao nosso regime democrático, típicos da "Hora dos predadores", que devem ser tratados e repelidos como tal. E enfatizo o termo "sem precedentes" como rigorosamente preciso para esses comportamentos, ainda que as motivações não cheguem a constituir novidade histórica: tentar impor novamente ao mundo uma lógica de lei da selva e de subordinação. Analisar o que acontece no momento em matéria de agressões ao Brasil com métricas e réguas do passado é equivocar-se na defesa do interesse nacional. O mundo mudou, mudou para pior nas redes e nas relações internacionais, e, nessas horas, não se pode ser ingênuo nem agir unicamente com base em métricas e padrões do passado.

O respeito conquistado pela diplomacia brasileira ao longo de gerações, no Brasil e no exterior, deriva da lucidez na leitura dos sinais recebidos da nossa sociedade e do mundo. E os sinais da atualidade, no caso do Brasil, incluem ataques inauditos e virulentos, em alguns casos instigados por brasileiros que abertamente conspiram contra o interesse nacional. Por esse motivo, o exercício da proporcionalidade, basilar em relações internacionais, requer respostas enérgicas do Estado brasileiro em defesa da nossa soberania e das nossas instituições. E aqui entra o componente da desinformação no debate público.

Percebo, no debate dos últimos dias, a tentativa de alguns de inverter a responsabilidade pelos atos hostis que é de única e exclusiva responsabilidade de governantes e governos estrangeiros que os praticam, e a ninguém mais. Estão de volta os mesmos atores políticos e sociais que fracassaram na implementação de um golpe de Estado no Brasil e voltaram a fracassar na tentativa de maquiar ou normalizar o golpe, frustrado pela pronta ação das instituições e da sociedade brasileira. Esses mesmos atores agora tentam responsabilizar o governo brasileiro pelas agressões de que é alvo e polemizar a respeito da resposta proporcional do Brasil tanto às agressões recebidas como às declaradas manobras de ingerência externa.

Nosso país não provocou o chamado "tarifaço" e as sanções de 2025, que tinham como declarado objetivo pressionar o Poder Judiciário brasileiro; tampouco deu motivo para os impropérios do presidente de país vizinho em evento político-partidário recente em solo brasileiro, para citar dois exemplos mais gritantes, entre vários outros. Como observou recentemente o presidente Sarney em artigo neste Correio, do alto do seu rico legado na aproximação com a Argentina e na integração regional, os "despautérios" recentes contra o Brasil encontram-se totalmente "fora dos limites da civilidade". O artigo é uma aula de história proferida por um dos principais protagonistas da construção de laços que se fortaleceram na relação bilateral, em 40 anos de convivência democrática, patrimônio comum que deve ser defendido neste momento.

Aqueles que tentaram normalizar o golpe buscam agora inverter o ônus pelos ataques ao Brasil e às nossas instituições. Fracassarão de novo porque, até mesmo na era da desinformação e da pós-verdade, ainda continuam vivas as noções de boa educação e de certo e errado que nos ensinaram em casa desde a infância. Agredir, ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja na casa, seja no país de quem acolhe a visita, ou conspirar contra a própria pátria no exterior são atitudes erradas, são condenáveis, e nada mudará essa realidade. Não se responsabiliza a vítima por uma agressão recebida. A culpa cabe sempre ao agressor.

Tentam bater no Brasil por meio de autoridades estrangeiras e depois esconder a mão. Não vai funcionar: o brasileiro está atento, conhece bem a sua história e não abre mão de conduzir os destinos do próprio país. Não será governado por controle remoto a partir de uma capital estrangeira. O brasileiro conta com instituições democráticas fortes para a defesa do interesse nacional em tempos de conflito, e o Itamaraty não deixará de reagir, sempre com profissionalismo, às manobras de desinformação e às grosserias de candidatos a predadores e seus apoiadores locais.

 


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Por Opinião
postado em 11/08/2026 05:00
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