
Brasil e Argentina estabeleceram relações diplomáticas em 25 de junho de 1823. São 203 anos de amizade e de cooperação bilateral, com uma troca comercial anual de US$ 31 bilhões (ou R$ 158 bilhões). Por isso, senhor presidente Javier Milei, é inconcebível que, por simples discrepância ideológica, o senhor coloque em risco uma pareceria tão importante — principalmente para seu país. Parece-me inacreditável que o senhor tenha saído de sua Buenos Aires para fazer proselitismo político e ofender o chefe de Estado de uma nação irmã em São Paulo.
Soa estranho um mandatário deixar seus afazeres, em meio a uma crise econômica, para participar de uma convenção partidária em uma outra nação. E ainda ser extremamente mal-educado, imprudente e descortês em suas declarações. O que o senhor se prestou a fazer foi uma ingerência. Tentou se enfiar onde não foi chamado e onde não lhe cabe opinar. Um presidente pode até pensar mal de um estadista de nação vizinha, mas não expressar isso para causar ou "farmar aura".
Parafraseando uma colega jornalista: "Que deselegante, Milei!" O senhor deveria saber que sua atitude não condiz com o cargo que ocupa. Por aqui, no Brasil, chamamos isso de "molecagem". Pelo histórico de moderação da diplomacia do Barão do Rio Branco, é improvável que o Itamaraty rompa relações com a Argentina.
Pero... O senhor deveria saber que quem teria mais a perder com isso seria a Argentina, não o Brasil. Sim, porque o nosso país tem se consolidado, ao longo das últimas décadas, como potência emergente e uma das nações mais ricas e prósperas do Hemisfério Sul. Por sua vez, a Argentina registrou encolhimento da atividade econômica de 0,5% em relação a abril. O seu índice de popularidade é o menor em dois anos: apenas 36%. Isso quer dizer que mais de seis em cada 10 argentinos reprovam o seu governo.
Não vejo como um índice tão baixo de prestígio possa chancelar o papelão que o senhor fez aqui no Brasil. Sugestão: preocupe-se mais com o seu país. Tente consertar a sua economia, recuperar um pouco do respeito que seu povo tem pelo senhor. Se eu fosse argentino, ficaria profundamente envergonhado em ver o presidente do meu país se deslocando a uma nação vizinha para achincalhar o chefe de Estado.
O senhor, presidente Milei, deveria saber que qualquer coisa que fizer em prol de candidato A ou B no Brasil não surtirá qualquer efeito prático. A não ser aparecer nos holofotes da mídia como um boquirroto que se julga ultralibertário ou um maleducado que acredita obter alguma vantagem ao cortejar um político de mesma matiz ideológica.
Um presidente da República deveria portar-se como tal e tratar apenas dos assuntos de seu país. Cumprir com o que se espera dele. E, de quebra, ser educado. É isso que se espera do representante de uma nação. ¡Más educación, Milei!

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