Artigo

A periferia da fibra óptica

Recusar-se a depender de um único fornecedor de tecnologia ou de um único comprador de matéria-prima não é neutralidade, é estratégia

. -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
. - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Guilherme Frizzera doutor em relações internacionais pela UnB. Professor e coordenador do bacharelado em relações internacionais da Uninter

Trump pressiona o Brasil, ameaça, declara preferências e oferece às candidaturas um assunto pronto. Milei converte afinidade ideológica em participação na eleição do país vizinho. As campanhas reagem conforme suas conveniências, algumas denunciando a ingerência, outras celebrando-a, todas calculando seus efeitos eleitorais. Enquanto isso, minerais brasileiros alimentam a cadeia digital, dados produzidos no país são processados por sistemas estrangeiros e centros de dados chegam cercados pela promessa de que consumir energia aqui significa conquistar autonomia. É possível que a política externa nunca tenha parecido tão presente numa eleição brasileira. Também é possível que continue ausente.

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Bajular Trump não constitui uma política para os Estados Unidos, assim como criticar Milei não define uma estratégia para a América do Sul. Ambos mobilizam eleitores e oferecem vocabulário aos candidatos. Nenhum deles responde à pergunta que deveria organizar o debate. Como o Brasil pretende ocupar uma economia internacional em que produção, comércio, tecnologia e segurança já não funcionam como campos separados?

A resposta começa antes do celular, da nuvem e da inteligência artificial. Começa nos minerais críticos, atravessa energia, semicondutores, cabos, centros de dados e processamento, até chegar aos sistemas que organizam informação, crédito, consumo e defesa. Quem controla essas etapas define acessos, estabelece dependências e pode converter uma decisão econômica em limite político.

O Brasil reúne minerais, energia, território, mercado, universidades e capacidade científica. Isso não lhe garante autonomia. Um país pode se tornar necessário para a economia digital e continuar irrelevante na definição de suas regras. Pode fornecer lítio, terras raras e eletricidade, receber centros de dados e, ainda assim, comprar tecnologia, alugar processamento e depender das plataformas que organizam os dados de sua população.

Talvez o Brasil esteja repetindo com o lítio e os dados o que fez com o café e o minério de ferro. A diferença é que, agora, a dependência chega acompanhada de servidores, relatórios de inovação e cerimônias sobre o futuro. Exportam-se os elementos materiais da transformação e importam-se os sistemas que determinam como ela será usada. A periferia não desaparece quando se torna digital. Ela ganha fibra óptica. Por isso, o debate não se resolve perguntando quantos centros de dados o país deve atrair, quais incentivos deve conceder ou se a exploração mineral será estatal ou privada.  Essas decisões importam, mas não constituem uma estratégia internacional.

Uma empresa estatal pode exportar matéria-prima sem criar capacidade tecnológica. Uma empresa privada pode investir sem deixar no país mais do que a extração. Um centro de dados pode consumir energia brasileira e obedecer a decisões tomadas fora do Brasil. A questão é outra. Quais capacidades permanecem quando o investimento chega, opera e parte? Pesquisa, processamento, formação técnica, produção local e propriedade intelectual não podem depender da boa vontade do parceiro. Precisam integrar os termos de sua entrada.

Uma cadeia com muitos elos permite escolher quais deles ocupar. É essa a soberania possível para um país que não controla sozinho a cadeia e sabe que nenhum outro país a controla por inteiro. Recusar-se a depender de um único fornecedor de tecnologia ou de um único comprador de matéria-prima não é neutralidade, é estratégia. O Brasil não precisa de distância igual entre Estados Unidos, China e Europa. Precisa impedir que a proximidade com um feche as portas abertas pelos outros.

É nesse mundo que a eleição de 2026 deveria obrigar as candidaturas a explicar quais dependências aceitam, quais pretendem reduzir e como transformariam recursos em poder de negociação. Trump e Milei continuarão oferecendo fatos e provocações à campanha brasileira. Enquanto as candidaturas calculam o ganho de cada reação, o lítio continuará saindo, os dados continuarão circulando e os sistemas continuarão sendo construídos. Talvez, quando o Brasil decidir qual posição deseja ocupar, ela já tenha sido escolhida por quem controla a cadeia.

 

 

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Por Opinião
postado em 13/08/2026 05:00
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