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Faltam três meses para as eleições. E aí?

Os problemas que mais afetam o voto são vividos de maneira local e desigual, mas os partidos brasileiros são obrigatoriamente nacionais

. -  (crédito: kleber Sales/CB)
. - (crédito: kleber Sales/CB)

» DANIEL A. DE AZEVEDO Professor de geografia política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)

Faltando pouco tempo para as eleições nacionais e estaduais, persistem muitas indecisões entre os eleitores e também interpretações equivocadas sobre as tendências eleitorais no Brasil. Parte delas nasce de uma leitura inadequada das regras do jogo e da geografia do nosso sistema político. Três falácias, em especial, precisam ser esclarecidas.

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A primeira diz respeito à maneira como o voto é contado na eleição presidencial. Na última semana, vi especialistas afirmarem que Lula e Flávio Bolsonaro estariam em "empate técnico" no Rio de Janeiro, enquanto o segundo teria vantagem em São Paulo, apresentado como "o maior colégio eleitoral do Brasil". Não é apenas a expressão "colégio eleitoral" que está errada. Também é enganoso falar em vitória, derrota ou empate dentro de um estado como se isso tivesse valor próprio na disputa presidencial. No Brasil, o candidato não ganha nem perde São Paulo, Rio de Janeiro, Piauí ou Bahia. Ele ganha ou perde votos, que são somados nacionalmente.

Cada voto válido tem o mesmo peso, independentemente de onde tenha sido depositado. Se um candidato tem 60% das intenções de voto em um estado e seu adversário reduz essa vantagem para 57%, houve um ganho importante, ainda que ele continue longe de vencer naquele território. Como os estados não são conquistados em bloco, o objetivo de uma campanha presidencial não é necessariamente vencer em cada unidade da Federação, mas maximizar votos em todo o país. Isso não significa que os estados sejam irrelevantes: eles importam como espaços de organização da campanha, de construção de palanques e de mobilização política, mas não como unidades autônomas de contagem do resultado. Analisar o Brasil como se fossem os Estados Unidos é cafona, para dizer o mínimo.

Isso nos leva ao segundo ponto: o impacto político dos problemas sociais não é homogêneo no território. Ninguém espera que o Nordeste, tratado erroneamente como um bloco eleitoral, passe a dar maioria a Flávio Bolsonaro em 2026. Mas essa forma de enxergar ignora que o lugar específico em que o eleitor vive importa. A violência é um exemplo. O Atlas da Violência de 2026 mostrou que as 10 cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste. Ao compararmos as eleições de 2018 e 2022, Jair Bolsonaro ampliou sua participação nos votos válidos do segundo turno em sete desses 10 municípios. A associação do cidadão entre bolsonarismo e uma suposta maior capacidade de lidar com a segurança pública pode produzir efeitos territoriais diferentes daqueles sugeridos por uma leitura genérica do chamado "voto nordestino".

O que acontecerá em 2026? A expansão da violência e o fortalecimento de facções criminosas poderão reduzir a vantagem petista em determinados municípios? Embora a segurança pública seja atribuição principalmente dos governos estaduais, essa divisão constitucional raramente orienta a percepção cotidiana. Para quem vive sob medo, pouco importa qual esfera de governo tem formalmente a competência.

É justamente aí que o segundo ponto se conecta ao terceiro. Os problemas que mais afetam o voto são vividos de maneira local e desigual, mas os partidos brasileiros são obrigatoriamente nacionais. Interesses nacionais, estaduais e municipais precisam coexistir dentro das mesmas estruturas partidárias, mesmo quando apontam para direções opostas. Até em países pequenos, como Costa Rica e Eslovênia, podem existir partidos organizados apenas em escala regional ou local. No Brasil, isso não é permitido. 

Por isso, vemos candidatos à Presidência sem conseguir montar palanques nos estados e candidatos a governador evitando apoiar qualquer presidenciável. Declarar apoio nacional pode comprometer uma aliança estadual; a saída, muitas vezes, é a "neutralidade". Todos perdem, porque os partidos deixam de organizar consensos e de apresentar agendas articuladas entre as diferentes escalas de governo. 

Essa desconexão se aprofundou com a transformação recente do orçamento federal. O Brasil vive uma espécie de "descentralização centralizada". As emendas parlamentares permitem que municípios recebam recursos para obras e políticas públicas sem depender exclusivamente de negociações com o Palácio do Planalto. Porém, os recursos continuam concentrados em Brasília, agora sob controle crescente de deputados e senadores. O resultado é o fortalecimento de parlamentares com vínculos locais cada vez mais intensos, embora inseridos em partidos obrigatoriamente nacionais. Eles constroem suas bases destinando recursos a municípios específicos, mas nem sempre conseguem transformar essas relações territoriais em projetos partidários mais amplos.

Conhecer as regras do jogo é compreender que os votos para presidente são somados nacionalmente, embora as escolhas sejam construídas em realidades locais muito diferentes, e que partidos, alianças e recursos públicos deveriam conectar essas várias escalas da política. É também reconhecer o peso de cada escolha eleitoral: não apenas de quem ocupará a Presidência, mas de quem terá poder no Legislativo para apoiar seu projeto, modificá-lo, fiscalizá-lo ou impedir sua execução.

 


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Por Opinião
postado em 09/08/2026 06:11
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