
» EMERSON PEREIRA - Diretor de tecnologia educacional do Colégio Bandeirantes
O início de um novo ciclo letivo é sempre um momento de reflexão sobre os rumos do ensino e sobre como preparamos as novas gerações para um mundo em constante transformação. Recentemente, tive a oportunidade de integrar uma comitiva de lideranças educacionais brasileiras em uma imersão pela China. O objetivo era claro: mergulhar no ecossistema de tecnologia, inovação e cultura do país que hoje dita o ritmo da transformação digital global.
Ao percorrer hubs tecnológicos como Shenzhen, uma metrópole de 19 milhões de habitantes frequentemente chamada de o Vale do Silício chinês, a visão de futuro impressiona. Vemos robôs humanoides desenvolvidos pela Ubtech com toque sensível para assistência social, óculos de tradução simultânea da iFlytek superando barreiras linguísticas e o instituto de pesquisa SIAT, capaz de registrar uma média de seis patentes por dia. A integração entre empresas, centros de pesquisa e universidades é total. No entanto, o aprendizado mais profundo para a educação não reside apenas na velocidade com que a tecnologia é criada, mas na forma como ela é integrada à formação humana e à sociedade.
Nas instituições de ensino visitadas, o impacto da inteligência artificial (IA) já é uma realidade estruturada. Na Dandelion Middle School, voltada para a equidade e o acolhimento de filhos de migrantes, a avaliação adaptativa por IA convive com iniciativas de cura emocional e engajamento comunitário. Na Shenzhen Nanshan Renzhi Experimental School, os estudantes operam as próprias máquinas e interagem diretamente com a IA no cotidiano. Já na Moonshot School, referência em ensino STREAM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Robótica, Engenharia, Artes e Matemática), os alunos desenvolvem projetos com foco em vibe coding e empreendedorismo, enquanto professores atuam como designers de experiências apoiados por assistentes virtuais de IA.
Essas experiências reforçam uma diretriz que ganha força no cenário internacional — como o plano liderado em Hong Kong para tornar o ensino de IA obrigatório nos currículos até 2028 —, mas também acendem um alerta fundamental: o avanço tecnológico precisa caminhar lado a lado com o letramento ético e o desenvolvimento socioemocional.
Na China, é notável a escolha consciente sobre quais tecnologias entram na sala de aula. Ao mesmo tempo em que a IA é aplicada de forma intensiva no aprendizado, o uso de redes sociais no ambiente escolar é estritamente controlado. Há um equilíbrio intencional entre o domínio técnico e o estilo de vida, fundamentado no respeito à cultura local. Um exemplo simbólico dessa mentalidade pode ser visto em um centro médico de última geração que visitamos: no pátio do edifício moderno, mantinha-se preservada uma pequena casa de construção antiga, lembrando a todos as origens e a história daquela comunidade.
Ao observar esse contraste entre inovação e preservação, foi inevitável lembrar de Futuro ancestral, de Ailton Krenak. Na obra, o autor questiona a ideia de que o progresso exige o rompimento com nossas origens e propõe um caminho em que tecnologia, cultura e memória caminham juntas. Essa é uma convicção que o Colégio Bandeirantes fortalece há décadas: formar jovens preparados para o futuro, conectados à sua identidade, à sua história e aos valores que sustentam uma sociedade democrática.
Trazemos essa provocação para a nossa Semana Pedagógica e para a prática diária com nossos professores e alunos. A incorporação da inteligência artificial e de ferramentas avançadas de aprendizagem não se resume a adotar novas plataformas; trata-se de ensinar a usar a tecnologia de forma crítica, ética e responsável.
Nossa missão educacional é formar seres humanos resilientes à tecnologia. A IA deve atuar como um meio de expansão do potencial humano, um assistente para potencializar a autoria e a resolução de problemas complexos, e nunca como um substituto do pensamento crítico, da empatia e do discernimento moral.
À medida que o mundo avança rumo a uma convivência cada vez mais estreita com algoritmos e robótica, a escola reafirma o seu papel insubstituível: o de ser o espaço por excelência de desenvolvimento ético, cidadania e valores humanos. O futuro da educação pertence àqueles que sabem dominar a técnica sem jamais esquecer quem são.

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