
O que sei sobre ela vem de excertos das redes sociais. Como jamais a entrevistei nem apurei as informações publicadas, só posso dizer, com maior grau de certeza, que se chama Lusimar Augustinho da Silva. O CPF descrito no perfil do Instagram —, que também é a chave do pix por onde recebe doações — está cadastrado neste nome. Uma rápida busca em indexadores de processos judiciais mostra que ela é citada em 30 ações. A mais recente, de 13 de agosto, quando Lusimar, mais conhecida como "A menina", foi presa em flagrante no Setor Hoteleiro Norte, suspeita de injúria racial.
A prisão da Menina comoveu seus milhares de seguidores. Ela chegou a ter uma conta verificada com mais de 92 mil usuários inscritos, que foi desativada. Hoje, um segundo perfil atribuído a Lusimar é acompanhado por 23 mil pessoas. Nele, é postado o tipo de conteúdo que a fez famosa: vídeos em que xinga outros "influenciadores" ou cidadãos perseguidos por ela nas ruas e dentro de comércios. Geralmente, as ofensas envolvem racismo, homofobia e alegações sobre características físicas.
A mulher também acusa desconhecidos de roubos milionários, esquemas envolvendo agências de espionagem e determina "castigos" — noutro dia, até um gatinho que passeava na jardineira da varanda foi "castigado" (ela não faz nada, as tais penalidades são no âmbito espiritual da igreja que Lusimar criou, o Ministério Etrom, ou morte ao contrário).
É tentador pensar que a Menina foi um personagem bem construído para Lusimar ganhar a vida como tantos outros têm feito por aí: sendo "influencer". Ela viaja pra cima e pra baixo, tem smartphone, roupas, dorme em hotéis, come e faz compras, tudo com as doações dos seguidores. É evidentemente uma pessoa que recebeu educação formal: fala o português corretamente e, se for mesmo ela quem posta e legenda os vídeos, é boa em gramática, ortografia e pontuação.
Também percebe-se um apurado senso marqueteiro. Lusimar com certeza sabe que os vídeos com maior engajamento são aqueles em que sai xingando as pessoas na rua. Eu me envergonho de admitir: já ri de algumas situações, e também já pensei que, se fosse eu a vítima, teria vontade de dar-lhe uns bons tapas.
Acontece que, se for mesmo verdade o que se diz sobre ela, Lusimar sofre de esquizofrenia não tratada. Há relatos de internações involuntárias, das quais teria fugido. A terapia da Menina parece ser a rede social. Claramente, não está funcionando.
Se Lusimar realmente acredita que todas as pessoas que passam por perto estão tramando contra ela, é de se imaginar um sofrimento psíquico intenso. Conheci um homem cuja esposa morreu por suicídio: ela acreditava ser perseguida pela apresentadora de televisão e, para fugir, pulou a janela. A gente pode até já ter dado uma risadinha nos vídeos de Lusimar. Mas não há nada engraçado na esquizofrenia.
Como disse no início deste texto, sei muito pouco sobre Lusimar Augustinho da Silva. Na cobertura de saúde há 16 anos, sei um pouco mais sobre doenças mentais. O tratamento digno e adequado pode tirar dela o peso de um transtorno gravíssimo que, porém, é controlável, permitindo ao paciente a qualidade de vida que todos merecem. É essa história que eu gostaria de ver a Menina contar.

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