ARTIGO

Irã, o atoleiro de Trump

A Guarda Revolucionária Iraniana, espinha dorsal do regime dos aiatolás, segue intacta e tem surpreendido os EUA com ataques a bases militares americanas no Oriente Médio

Donald Trump -  (crédito: Divulgação/Casa Branca)
Donald Trump - (crédito: Divulgação/Casa Branca)

Cuidado quando tentarem vender-lhe gato por lebre. Donald Trump caiu nesse ardil, convencido pelo premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, e agora ficou preso no atoleiro. O presidente dos Estados Unidos acreditou que a missão seria fácil: uns poucos bombardeios e o regime teocrático do Irã ruiria como peça de dominó. Trump parecia apostar que, com a eliminação do aiatolá Ali Khamenei, uma multidão sairia às ruas de Teerã e das principais cidades iranianas para apressar a mudança de sistema de governo.

O titular da Casa Branca falhou miseravelmente. Ainda que muitas lideranças tenham sido assassinadas, os EUA não conseguiram o tal levante popular. Não contavam com o patriotismo que move a população do país persa nem com a percepção de que uma agressão à nação termina por unificar povo e governo, não por causar ruptura.

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Trump tem mãos atadas. Como diriam em Goiás, meu estado natal, está "no mato sem cachorro". Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, fez várias ameaças ao Irã e chegou a avisar que destruiria a nação do Oriente Médio. Teve que recuar em todas. Acabou por se transformar no boquirroto, naquele cara que adora contar coisas que ninguém mais acredita.

Com a economia à beira da recessão e com a popularidade em queda, o presidente corre o sério risco de entregar de bandeja aos democratas a maioria no Senado e na Câmara. Sim, porque um fiasco nas eleições de meio de mandato terá sido muito por culpa de Trump.

A Guarda Revolucionária Iraniana, espinha dorsal do regime dos aiatolás, segue intacta e tem surpreendido os EUA com ataques a bases militares americanas no Oriente Médio. Mesmo com uma adaga no pescoço, o Irã conseguiu desferir um golpe inesperado no Tio Sam: utilizou o Estreito de Ormuz como arma.

É inacreditável que os estrategistas da Casa Branca não tenham pensado na possibilidade de Teerã fechar a via marítima para conturbar o fornecimento de petróleo no mundo. A artimanha de Teerã impôs a Trump o ônus de se tornar o artífice de uma guerra capaz de levar o planeta a uma crise econômica imprevisível.

Nessa segunda-feira, Trump sugeriu aos iranianos que levantassem a "bandeira branca". Cinismo, mau caratismo, prepotência ou inocência? Ao perceber que entrou em uma "canoa furada", o republicano parece desesperado para encerrar o conflito e voltar a atenção às mazelas internas e à América Latina, a qual parece considerar o "quintal" de sua casa.

O problema é: como encerrar algo que nem mesmo deveria ter começado? Se declara vitória sobre o Irã, sai desmoralizado e com a pecha de mentiroso. Se simplesmente desmobiliza as suas forças do Oriente Médio e finaliza o conflito, passa a imagem de fraco. Se retoma os ataques ao Irã, corre o risco de dar murro em ponta de faca, acelerar seu desgaste político e desferir golpe de morte nas pretensões eleitorais do Partido Republicano em 3 de novembro. Trump está preso em um atoleiro e ninguém consegue tirá-lo de lá.

 


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postado em 19/08/2026 06:01
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