Artigo

Sim, isto é um homem

Envergonho-me quando acho que, se for para pedir, que seja pão — jamais pó de café. Envergonho-me por tirar deles o direito de serem pessoas, já que não têm endereço

"Me envergonho por tirar dos moradores de rua o direito de serem pessoas, já que não têm endereço." - (crédito: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press)

"Vocês viram que mais uma pessoa foi atacada por um morador de rua?", perguntei, na semana passada, às minhas irmãs. Ao que Karla questionou: "Já reparou que a gente trata morador de rua como uma categoria à parte?". Repeti o que havia falado. Pessoa atacada por morador de rua. Em que momento decidimos desumanizar alguém pelo fato desse alguém, diferentemente de nós, não ter onde viver?

Não sou hipócrita: fico extremamente incomodada com gente me pedindo dinheiro. Não adianta dizer que "estou sem trocado". "Aceito pix", respondem. Ou, então, "traz um pão pra mim do mercado?". Noutro dia, me pediram pó de café e fiquei indignada ("Mas que luxo é esse?", pensei, para minha própria vergonha. Ao confessá-lo em público, busco, egoisticamente, a redenção).

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Também me apavora a sensação de insegurança. Medo de ser atacada, seja em um assalto, seja durante um surto. Convidada do programa CB Saúde, a psiquiatra Helena Moura, professora da Universidade de Brasília (UnB), explicou, na última quinta-feira, que a população de rua é especialmente vulnerável a crises psicóticas, seja por deficiências nutricionais, abuso de substâncias ou pelo eterno estado de alerta exigido de quem está completamente sozinho em um mundo hostil.

Sei que temos razão de temer pela segurança; que, trabalhadores honestos e pagadores de tantos boletos, temos direito de não querer assumir a conta de desconhecido; que tem, sim, bandido infiltrado; que alguns têm casa (mas, se preferem se expor às ruas, que casa é essa?). Sei, antes de tudo, que preferíamos que fossem invisíveis, não enfeiando nem sujando nossas quadras, nem nos constrangendo quando, ao comer um croissant na varanda do café, somos abordados por alguém dizendo que tem fome.

Mesmo reconhecendo tudo isso, envergonho-me quando troco de calçada para evitar um ser humano moldado no mesmo barro que eu, mas que se veste de trapos, é desdentado e cheira mal. Envergonho-me quando acho que, se for para pedir, que seja pão — jamais pó de café. Envergonho-me por tirar deles o direito de serem pessoas, já que não têm endereço.

E, não, não vou levar para morar comigo, nem pegar para criar, que é o que se diz quando uma pessoa ousa questionar a aversão a moradores de rua. Eu também tenho medo e perco a paciência. Mas nem eu, nem você temos o direito de enxergá-los como coisas que deveriam ser removidas, jogadas bem longe de nós, onde não nos causem incômodo.

Ao visualizar um judeu no campo de concentração, o escritor italiano Primo Levi perguntou, criticamente: "É isto um homem?". Que nunca tenhamos dúvida ao nos depararmos com volumes cobertos por sacos pretos, sob lonas, imundos, no chão duro. São, sim, pessoas.  

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postado em 25/08/2026 06:00
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