
» ANA PAULAREPEZZA Presidente da CropLife Brasil
Há algo de profundamente brasileiro no modo como a luz do sol incide aqui: mais intensa, mais longa, acompanhada de uma umidade que tanto impõe quanto generosamente oferece. O Brasil é um país tropical, e isso não é apenas coordenada geográfica, é uma condição de existência, uma forma de ser, uma identidade construída por séculos na relação entre nosso povo, nossa natureza e nossa produção.
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No setor rural, esse perfil é igualmente singular e desafiador. Quando técnicos e pesquisadores usam o termo "agricultura tropical", referem-se a um conjunto de práticas e soluções específicas para regiões de clima quente e úmido, com alta biodiversidade, ciclos hidrológicos intensos e pressão elevada de pragas. Essas condições são muito diferentes do clima temperado, onde surgiu parte das referências técnicas e regulatórias adotadas em todo o mundo.
Por isso, a agricultura tropical não podia nascer da simples importação de manuais estrangeiros. Precisava de ciência própria. A criação da Embrapa, em 1973, deu escala a esse esforço e adaptou e gerou tecnologias para o campo brasileiro. Curiosamente (ou nem tanto assim), no mesmo período histórico o Tropicalismo explodia nos palcos e nos discos. Um movimento científico e um cultural, quase simultâneos, partindo da mesma intuição: o Brasil não precisava fugir da sua condição nativa, nem replicar referências de fora, para ser relevante. Precisava assumi-la como identidade, criativa na música, tecnológica no campo, e transformá-la em vantagem.
Guarde esse pensamento e aplique-o ao campo, décadas depois.
A terra roxa do Paraná, o latossolo vermelho-amarelo do Cerrado, o solo massapê do Nordeste: cada terroir agrícola brasileiro exigiu que ciência e prática dialogassem para soluções próprias.
Não é coincidência que o Brasil tenha se consolidado entre os principais produtores de alimentos e se tornado o maior exportador mundial de soja, café, laranja, açúcar e carne bovina, mantendo ainda 66,3% do nosso território coberto por vegetação nativa. Um índice que nenhum outro grande produtor agrícola do mundo pode apresentar.
Esses números positivos dependem de uma equação com duas partes: base científica e regulatória adequadas aos nossos desafios. E é o ponto central da campanha O que é que só o Brasil tem?, da CropLife Brasil: o que sustenta o crescimento do agronegócio brasileiro é a capacidade de transformar conhecimento tropical em regras previsíveis, que acompanhem a velocidade de nossas pragas, safras e, cada vez mais, extremos climáticos como o El Niño, que testam com mais frequência a resiliência que levamos décadas para construir.
O modelo de produção do Brasil, mais que questão interna, é base da segurança alimentar global. É nesse contexto que falamos de autonomia regulatória: nossa agricultura tropical não pede pressa por pressa; demanda pesquisa constante, previsibilidade e processos mais ágeis, que acompanhem o tempo do nosso campo, não o calendário de países de clima estável. Já demonstramos plenamente, nas últimas décadas e ainda hoje, nossa capacidade de responder a esse desafio e de estabelecer parâmetros próprios, baseados em ciência e compatíveis com as características da nossa agricultura.
O que é que só o Brasil tem? não é uma pergunta retórica. A campanha convida a olhar para o campo brasileiro da mesma forma com que vemos a nossa cultura: com orgulho, curiosidade e a consciência de que o que temos é único, precioso e digno de proteção.
Quando o Brasil investe em seu desenvolvimento científico e tem um modelo regulatório à altura e compatível com a realidade, o campo avança, a produção cresce, as exportações se fortalecem e toda a sociedade colhe os resultados. Preservar essa conquista exige continuar investindo em pesquisa e inovação.
O que só o Brasil tem é a potência para alimentar o país e o mundo. E isso merece ser dito em voz alta.

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