
Por André Gustavo Stumpf, jornalista
A Amazônia esconde mistérios. Em fevereiro de 1500, Vicente Yanes Pinzón, que havia comandado a caravela Nina na expedição de Cristovam Colombo, navegou pelo litoral do território que seria depois chamado de Brasil. Singrou as águas do rio gigante que batizou de MarDulce. Em agosto de 1542, Francisco Orellana, acompanhado de soldados e índios, iniciou a descida do Rio Napo, no atual Equador, após fundar a cidade de Guayaquil. Ele navegou toda a extensão do Rio Amazonas. O frei Gastar de Carvajal foi o escrivão da improvisada aventura.
O religioso fez o relato da formidável viagem pelo imenso rio que deságua do Oceano Atlântico. Obteve enorme sucesso na Europa. A expedição enfrentou pesadas dificuldades, desceu das montanhas dos Andes até alcançar o litoral. Segundo o relato, foram atacados por diversas tribos, uma delas, porém, era constituída apenas de mulheres que viviam isoladas. Elas foram chamadas de amazonas, nome que acabou identificando toda a região. A lenda batizou aquela enorme área.
A Amazônia foi descoberta pelos espanhóis, mas colonizada por portugueses. O irmão do Marquês de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, foi governador da província do Grão Pará no século 18. Ele deu nomes portugueses às cidades situadas ao longo do Rio Amazonas. Até hoje sua escolha prevalece. A Independência do Brasil no norte do país só ocorreu em agosto de 1823, porque a população da região preferia permanecer ligada à Lisboa. Emissários do almirante Cochrane, oficial inglês a serviço do imperador, ameaçaram bombardear Belém. Os revoltosos depuseram as armas e foram obrigados a se juntar ao Brasil Independente.
A Amazônia brasileira surgiu de maneira inesperada para o Império e mais ainda para a República. O governo federal ignorou as populações do Norte ao longo de várias décadas. Somente no governo Getúlio Vargas, nos anos 1940, os brasileiros começaram a perceber a existência do Norte, por meio da política oficial chamada de Marcha para o Oeste, que resultou na fundação das cidades de Rialma e Ceres, em Goiás, por Bernardo Sayão. Em tempos recentes, o governo abriu estradas que ligam o Norte ao resto do país, depois de construir Brasília.
A Amazônia passou por fases importantes. Ocorreu a época da borracha, no final do século 19. As elites locais enriqueceram. Mas os ingleses levaram a seringueira para a Ásia. E o comércio do Norte brasileiro faliu. Ocorreu a enorme fantasia de Henry Ford, que criou uma cidade — Fordlândia — com características norte-americanas nas margens do Rio Tapajós. Não deu certo. Grandes empreendimentos ocorreram no Amapá. Alguns funcionam até hoje. Outros fecharam as portas. Agora surge petróleo na chamada Margem Equatorial, descoberto pela Petrobras. O petróleo apareceu em poço, denominado Morpho, cavado abaixo de 3 mil metros de lâmina de água, a 175 quilômetros da costa e a 500 da foz do Rio Amazonas.
O petróleo do Amapá se integra ao formidável lençol descoberto na Guiana, antiga Guiana Inglesa, e no Suriname. Os dois pequenos países constituem as economias que mais crescem no mundo, por causa da recente descoberta. Essa nova área de produção de petróleo, na costa norte do Brasil, abrange a região que vai do Amapá até o Rio Grande do Norte. Precisamente, os estados mais pobres do Brasil, que poderão começar a receber os royalties produzidos pela exploração do ouro negro dentro de alguns anos. É perspectiva nova para a região que não possuía nenhuma esperança à vista.
O petróleo da Guiana foi descoberto pela norte-americana Exxon Mobil a 200 quilômetros do litoral. A empresa estima que existam mais de 10 bilhões de barris no bloco, chamado de Stabroek. Para efeito de comparação, a Guiana tem crescido nos últimos anos a média de 30% ao ano, enquanto o Brasil deverá crescer neste 2026 menos de 2%. O país vizinho está vivendo transformação impressionante. Pobre, com 900 mil habitantes, de repente se encontrou com enormes possibilidades financeiras. Obras por todos os lados. A estrada que liga a capital, Georgetown, à fronteira com Roraima, que estava abandonada, está recebendo asfalto. Grandes investidores já estão lá. O governo financia também a agricultura. Esse mesmo espantoso crescimento poderá ocorrer no norte do Brasil.
A produção da Margem Equatorial deverá entrar no mercado dentro de alguns anos. Os cálculos dos técnicos brasileiros indicam que em torno de 2030 a produção de petróleo do pré-sal atingirá seu ponto mais elevado. A partir daí tenderá a se reduzir. É nessa janela de oportunidade que deverá entrar a produção do norte brasileiro. Até lá, as energias originárias do vento e da luz do Sol já deverão ser majoritárias no Brasil, que poderá fazer a transição para a energia limpa sem maiores problemas. Isto é, se trabalhar bem.

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