
Dia desses escutei a música Meus tempos de criança, do compositor Ataulfo Alves, na voz do cantador Xangai, parceiro eterno de Elomar. "Eu daria tudo o que tivesse pra voltar aos tempos de criança. Eu não sei porque que a gente cresce se não sai da gente essa lembrança", diz um trecho da canção. Quem não tem doces recordações da infância? Com o passar dos anos, tornei-me mais saudosista. Talvez sabedor de como fui sortudo por uma infância livre de telas. Sim, o "celular tijolão" somente foi lançado quando eu tinha meus oito anos; o de tela, lá pelos meus 19 anos. Um produto proibitivo pelo preço, à época.
Morava em Goiânia, minha terra natal, e costumava jogar bola na rua até altas horas da madrugada. Improvisávamos os golzinhos e nos divertíamos muito. O que dizer de quando pulamos o muro de uma escola, para jogar na quadra, e fomos recebidos por um pastor alemão? Nunca subi tão rápido em uma árvore. Às vezes, criávamos brincadeiras meio estúpidas: gincana em que disputávamos quem bebia mais água, quem dava mais voltas correndo ao redor do quarteirão, entre outras. O fim de semana era quase sagrado: viajávamos à fazenda dos meus avós, onde curtia as cavalgadas, os banhos de piscina, as pescarias na represa, o futebol no pasto ou os passeios de bicicleta.
Julho também tinha seu ritual. Todos os anos, meu pai, meus tios e amigos dele montavam um acampamento de praia no Rio Araguaia. Eu e mais umas 70 pessoas da família passávamos 15 dias maravilhosos no paraíso. Pescaria durante o dia, passeios de canoa, banhos de rio, fogueira e céu absurdamente estrelado à noite.
Engraçado como alguns objetos marcam nossas lembranças. O famoso "orelhão", em que fazíamos filas e acelerávamos a conversa à medida que as fichas eram engolidas pelo aparelho. A fita cassete que, no meio da música favorita, às vezes, era engolida pelo gravador (o jeito era pegar uma caneta, rebobinar tudo e torcer para que ela não arrebentasse), a fita VHS seguida do fascínio do DVD (eu me recordo de como fiquei embasbacado com o primeiro Blu Ray que meu pai comprou). O tênis Kichute, as balas dadinho e Skate, o telejogo (primeira versão de um videogame), as figurinhas de álbuns (para virar no bafo, e essas resistiram ao tempo).
Imagino como será o mundo quando meus filhos, de 15 e de 22 anos, tiverem minha idade. De que tipo de tecnologia terão à disposição? Do que sentirão saudades de seu tempo de criança e de sua adolescência? Terão conseguido aproveitar momentos que, um dia, ficarão guardados na memória e em um lugarzinho especial do coração? Sim, porque o escritor e poeta argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) escreveu que a vida é feita de momentos. E que não podemos nos perder do agora.

Expressão de opinião
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