Artigo

Maria Elisa Costa, a irmã de Brasília

Brasília e Maria Elisa: uma história que sempre se misturou, desde o nascimento do projeto, seguindo unidas por toda a existência desta personalidade, que merece todo reconhecimento e a nossa mais sincera gratidão

 Maria Elisa Costa fala ao Correio.  -  (crédito: D.A. Press)
Maria Elisa Costa fala ao Correio. - (crédito: D.A. Press)

Por Silvio Cavalcante, arquiteto

Já seria motivo bastante para agradecer Maria Elisa pela entrega do Relatório do Plano Piloto de Lucio Costa, projeto da cidade que ela considerava sua irmã, nos escaninhos do Palácio Gustavo Capanema, no último prazo, para concorrer ao Concurso Nacional da Nova Capital do Brasil.

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Projeto esse que, diga-se de passagem, Lucio Costa começou a gestar embarcado num navio, regressando de uma viagem de Nova Iorque para o Rio de Janeiro.

Esses fatos ligaram definitivamente a história de Maria Elisa à trajetória da cidade, que ela passou a defender de maneira intransigente. Sempre esteve disposta a explicar, com muita propriedade, a importância da nova capital, e sua inovadora arquitetura e seu urbanismo.

Nunca esqueço nossas inúmeras conversas nas quais ela comentava, com provas incontestáveis, sobre a originalidade, a brasilidade e a capacidade criativa dos inventores de Brasília, que espantaram o mundo com tamanha novidade.

Enquanto muitos criticavam a transferência da capital (e ainda havia os que defendiam o retorno para a antiga Guanabara), ela sempre se posicionou pelo reconhecimento da importância da cidade para o Brasil, enquanto estratégia de integração nacional e interiorização do desenvolvimento.  Ressaltava, essencialmente, o papel que a cidade passou a representar no cenário cultural da humanidade, como afirmação da capacidade brasileira nas áreas da arquitetura e urbanismo.

Assim, sempre ligada umbilicalmente à capital moderna, teve importantes atuações em distintas instâncias de gestão pública, como o Conselho de Arquitetura, Urbanismo e Meio Ambiente (o Cauma, criado pelo governador José Aparecido de Oliveira, quando ainda não havia a Câmara Legislativa do Distrito Federal), ou a Presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Foi decisiva também sua atuação quando do reconhecimento de Brasília, pela Unesco, como Patrimônio Cultural da Humanidade. Colaborou com a implantação do Projeto Brasília Revisitada (texto complementar de Lucio Costa, por ocasião do tombamento, prevendo o futuro crescimento da cidade), notadamente na concepção do bairro Sudoeste.

Muito ligada à trajetória do pai, procurou, ao longo da vida, manter um arquivo de todas as suas atividades profissionais, culminando na edição primorosa do livro Lucio Costa — Registros de uma vivência, em 1995, quando este já tinha 93 anos.

Sempre preocupada com a preservação do importante acervo, contou com a colaboração do Instituto Antônio Carlos Jobim para sua guarda por algum tempo. Objetivando uma melhor conservação de todo o acervo e pensando na possibilidade de digitalizar os documentos, a família optou por passar sua guarda para a Casa da Arquitetura, em Matozinhos, Portugal (com iniciativas de compartilhamento digital com o Arquivo Público do Distrito Federal — ArPDF).

Maria Elisa me abriu as portas do apartamento do Leblon onde morava Lucio Costa, onde, por algumas vezes, tive a grande oportunidade de conversar, por horas, com o inventor de Brasília. 

Certa ocasião, levei para ele a boneca do livro Relatório de Plano Piloto de Brasília, que estávamos produzindo (numa parceria entre o Departamento de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal — DePHA, a Companhia de Desenvolvimento do Distrito Federal — Codeplan e o Arquivo Público — ArPDF), para consultar sobre a capa. Tínhamos a ideia de adotar como título uma frase de sua autoria: "Brasília, cidade que eu inventei". Ele me disse: — tira o "eu".

E a capa do livro ficou: Brasília, cidade que inventei. 

Tivemos, mais uma vez, a grata satisfação de estar com ele no lançamento do livro, com uma grande exposição de fotografias, no foyer do Teatro Nacional, em 1991.

Brasília e Maria Elisa: uma história que sempre se misturou, desde o nascimento do projeto, seguindo unidas por toda a existência desta personalidade, que merece todo reconhecimento e a nossa mais sincera gratidão. 

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Por Opinião
postado em 30/08/2026 06:00
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