Artigo

Por que elegemos poucos jovens?

Numa democracia representativa, os jovens deveriam ocupar espaços onde são definidas as políticas que vão impactar sua geração; com pouca estrutura dos partidos, eles têm menos chances de se eleger.

» FERNANDO HADDAD MOURA - Diretor executivo da Legisla Brasil

» SYNTHYA MAIA - Pesquisadora da Legisla Brasil

A ideia de que as novas gerações perderam o interesse pela política tornou-se uma explicação recorrente para a baixa presença de jovens nos espaços de poder. De fato, o número de jovens filiados aos 20 maiores partidos do país caiu cerca de 20%, entre 2018 e 2024, passando de 1,83 milhão para 1,45 milhão, de acordo com levantamento da Legisla Brasil. O cenário, porém, é mais complexo. Embora o afastamento dos partidos seja um problema real, não explica sozinho a escassez de jovens eleitos. 

Um jovem que disputa uma vaga de vereador tem menos chance de se eleger do que candidatos com mais idade. Em 2024, candidatos de 18 a 20 anos se elegeram a uma taxa de 7,1%, enquanto candidatos de 35 a 44 anos atingiram 16% — mais que o dobro. Esse dado, revelado em nossa pesquisa "Juventudes e Participação Partidária", que será lançada em 12 de agosto, Dia Internacional da Juventude, indica que o principal desafio da renovação política vai além de captar o interesse dos jovens para se filiar aos partidos; está no caminho entre a filiação e o mandato.

Para entender esse percurso, a pesquisa da Legisla combinou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a escuta de quem vive a política partidária por dentro: foram 94 respostas a um questionário, 62 entrevistas com jovens que são ou foram filiados a 16 partidos de esquerda, centro e direita, e dois grupos focais que reuniram jovens de diferentes regiões do país. O estudo sugere que o distanciamento entre juventude e partidos é uma via de mão dupla: jovens se afastam porque encontram poucas oportunidades de participação, enquanto os partidos têm dificuldade de compartilhar efetivamente o poder com eles. 

O desafio começa a aparecer antes da urna, no acesso às condições que tornam uma candidatura competitiva. Sob as mesmas regras e diante do mesmo eleitorado, as juventudes chegam à eleição em desvantagem. Em 2024, quase 30 mil jovens disputaram uma vaga de vereador, mas apenas 3.566 conseguiram vencer, representando 6% do total de vereanças eleitas. No mesmo pleito, uma candidatura jovem recebeu, em média, R$ 23.028 em recursos partidários, o equivalente a 64% do valor destinado às candidaturas não jovens (R$ 36 mil). A disputa era a mesma; as condições, não.

Já quando olhamos para os dados de reeleição entre vereadores, os jovens têm desempenho igual ou superior ao dos candidatos não jovens: 57,0% contra 53,6%, em 2020, e 64,6% contra 59,3%, em 2024. O que falta é, sobretudo, a chance de disputar a primeira eleição em condições minimamente comparáveis às das lideranças já estabelecidas. 

Recursos de campanha, apoio das lideranças e acesso às redes internas raramente são distribuídos de maneira uniforme. A pesquisa mostra que os 18 partidos analisados mantêm organizações de juventude e 15 delas estão previstas em seus estatutos, mas apenas seis garantem a esses grupos direito a voto na direção nacional. Nenhum mantém um mecanismo específico para financiar candidaturas jovens. Os números ajudam a explicar a percepção recorrente entre os entrevistados: os partidos reconhecem a importância das novas gerações, mas ainda relutam em compartilhar os instrumentos que decidem eleições e carreiras políticas. 

Quando gênero e raça entram nessa equação, o funil se estreita ainda mais. Entre os jovens eleitos em 2024, menos de um quinto eram mulheres e mais da metade eram pessoas brancas. O cruzamento desses marcadores revela uma disparidade profunda: uma jovem mulher negra tem quase 10 vezes menos chance de ser eleita do que um jovem homem branco da mesma idade. A renovação política depende também da capacidade de ampliar quem consegue atravessar esse percurso. 

Não por acaso, entre os jovens ouvidos pela pesquisa, uma das medidas mais defendidas foi a criação de mecanismos que garantam recursos e estrutura para suas candidaturas, a exemplo da política de cotas instituída para a participação feminina. Enquanto os partidos são obrigados a destinar parte do fundo eleitoral, do tempo de propaganda e da estrutura partidária às mulheres — o que é muito positivo —, não existe mecanismo semelhante para a juventude. 

Mais do que ser chamados para panfletagem de rua, eles querem oportunidades reais para disputar as eleições. Renovar a política depende de abrir esse caminho. Sem recursos, apoio político e espaço para decidir, os partidos comprometem a formação das lideranças que ocuparão o Legislativo e o Executivo nas próximas décadas. Com isso, fragilizam a própria democracia e sua capacidade de responder aos desafios de uma sociedade que continua mudando mais rápido do que suas estruturas internas. 

 


Mais Lidas