Artigo

O corpo que muda mais rápido que o hábito

Por trás de cada ponto percentual, há uma pessoa que, muito provavelmente, carrega um incômodo cotidiano com a própria imagem

Karina Milaré - CEO da Reds Research

Sentir-se mal com o próprio corpo deixou de ser uma queixa íntima para se tornar uma estatística de massa. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são contundentes: em 2019, 60,3% da população adulta brasileira estava com excesso de peso — cerca de 96 milhões de pessoas — e uma em cada quatro pessoas com 18 anos ou mais já era obesa, o equivalente a 41 milhões de brasileiros. Em apenas 17 anos, a obesidade adulta mais do que dobrou, passando de 12,2% para 26,8%. E o desconforto não se distribui por igual: a obesidade feminina (30,2%) é consistentemente maior do que a masculina.

Por trás de cada ponto percentual, há uma pessoa que, muito provavelmente, carrega um incômodo cotidiano com a própria imagem. Não surpreende, então, que as canetas emagrecedoras tenham se tornado um fenômeno tão veloz. Elas chegaram como resposta a um peso que é, ao mesmo tempo, físico e emocional.

A pesquisa que conduzimos na Reds, com mil usuários de canetas emagrecedoras, mostra que o grande motor dessa procura é legítimo: as pessoas querem se sentir bem com o próprio corpo. E, em larga medida, conseguem. A parcela que se diz satisfeita com o corpo salta de 17% para 61% após o início do tratamento. A sensação de cuidar bem da saúde vai de 41% para 74%. A culpa ao comer e a ansiedade com o peso recuam.

Mais do que isso: 68% dos entrevistados afirmam que passaram a cuidar mais — ou muito mais — de si mesmos, e 63% se matricularam em uma academia. Esse é o lado virtuoso do fenômeno, e ele não deve ser minimizado. O movimento que começa pela balança acaba puxando uma reorganização ampla dos hábitos diários, dos gastos e do bem-estar. Nossa pesquisa registra a queda no consumo de ultraprocessados, o crescimento de alimentos in natura e proteicos, o aumento da frequência em cuidados com a pele e o corpo. Há, de fato, uma transformação real de comportamento.

Mas a perda de peso é só o começo. O ponto que merece atenção é este: emagrecer não é o fim da linha — é o início dela. E aqui os dados externos acendem um sinal amarelo. Estudos sobre os análogos de GLP-1 mostram que, ao interromper a medicação, o peso tende a voltar rápido. Em um dos ensaios mais citados, os participantes recuperaram, em média, dois terços do peso perdido em cerca de um ano. Cerca de metade dos pacientes abandona o tratamento já no primeiro ano de uso. E a literatura é clara: mesmo quem mantinha dieta e atividade física voltou a ganhar peso após a parada.

A leitura é desconfortável, mas necessária. A caneta entrega o resultado; ela não entrega, sozinha, o hábito. Quando o tratamento termina sem que tenha havido uma reconstrução consistente da relação com a comida, com o movimento e com o próprio corpo, o organismo tende a fazer o caminho de volta — o velho efeito sanfona, agora em escala farmacológica. Não é coincidência que, na nossa pesquisa, praticamente ninguém declare ter encerrado o tratamento: a manutenção do peso segue dependendo da própria medicação.

É por isso que vale separar duas coisas que costumam ser confundidas. Uma é a busca pelo "corpo ideal" — uma régua estética estreita, que pressiona sobretudo as mulheres e que nenhuma medicação resolve, porque o problema nunca esteve no corpo, e sim na régua. Outra, bem diferente, é a construção de um estilo de vida sustentável, em que alimentação, atividade física e saúde mental deixam de ser projeto temporário e viram rotina.

As canetas emagrecedoras podem ser uma porta de entrada poderosa para a segunda. Elas dão o impulso inicial, aliviam a culpa, devolvem disposição e autoestima — e essa janela de motivação é valiosa. Mas só se transforma em mudança duradoura se for usada para o que realmente importa: criar hábitos que se sustentem quando a caneta não estiver mais lá.

O recado, no fim, é de equilíbrio. O fenômeno é real e traz transformações concretas na vida de milhões de pessoas. Reconhecê-lo é honesto. Mas tratá-lo como solução definitiva seria ignorar o que os números mostram. Sentir-se bem com o corpo é um direito — e um motor saudável de mudança. O corpo ideal, porém, não é o que cabe num padrão. É o que se sustenta sem depender de uma dose por semana.

 

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