Ricardo Alban - Empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
O Brasil tem diante de si uma oportunidade que poucos países terão nas próximas décadas: ampliar a produção de petróleo e gás, explorar minerais críticos, desenvolver uma bioeconomia de escala global e aproveitar uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Isso tudo plugado no nosso imenso e dinâmico mercado interno, nosso povo empreendedor e nossa relativa estabilidade geoeconômica em tempos de instabilidade global.
A pergunta é simples: vamos transformar essa nova riqueza em desenvolvimento ou apenas em mais uma fonte para financiar um Estado que cresce mais rápido que a economia? O debate fiscal costuma ser reduzido a uma escolha entre cortar gastos e aumentar impostos. É uma falsa dicotomia. Precisamos gastar melhor, arrecadar melhor e, sobretudo, fazer a economia crescer de forma rápida e sustentável.
O primeiro passo é a racionalização dos gastos públicos. O Brasil precisa de um plano plurianual de consolidação fiscal, com trajetória transparente para dívida, resultado primário, despesas obrigatórias e receitas recorrentes. Não se trata de ajuste cego. Trata-se de questionar, para cada gasto público, quanto custa, que resultado entrega e se existe maneira mais eficiente de alcançar o mesmo objetivo.
A segunda frente é o incremento das receitas, mas sem transformar toda dificuldade fiscal em aumento de impostos. O Brasil precisa aproveitar as novas riquezas que tem diante de si como o boom do petróleo e gás natural, os minerais críticos, a bioeconomia. E é essencial que essas riquezas sejam precedidas de agregação de valor e adensamento de suas cadeias industriais. Não podemos repetir o modelo em que exportamos a matéria-prima e importamos boa parte dos produtos de maior valor agregado. A exploração na Margem Equatorial, por exemplo, precisa estar associada a uma estratégia de desenvolvimento de fornecedores, engenharia, equipamentos, serviços tecnológicos e infraestrutura.
A terceira frente é recuperar receitas que hoje escapam do Estado e da economia formal, com combate firme ao contrabando, à falsificação, ao subfaturamento e ao mercado ilegal. Não é apenas uma questão policial. É uma questão fiscal, econômica e industrial. Segundo estimativa citada no documento da CNI, o mercado ilegal custou R$ 473 bilhões à economia brasileira em 2025, incluindo R$ 146,8 bilhões em tributos não arrecadados. Combustíveis são um exemplo particularmente grave. Cigarros eletrônicos, outro.
A quarta frente é a defesa comercial, para assegurar condições minimamente equivalentes de competição à produção brasileira. Isso significa utilizar antidumping adequado e justo, medidas compensatórias e salvaguardas quando necessárias, além de enfrentar importações que chegam ao país em condições artificialmente favorecidas.
Finalmente, precisamos enfrentar as reformas estruturantes. A reforma administrativa é necessária para que o Estado entregue mais com menos recursos. A inteligência artificial certamente cria mais condições para essa busca de eficiência. A Previdência precisa continuar sendo modernizada. E vale debater uma reforma eleitoral e institucional capaz de reduzir incentivos ao curto-prazismo e criar condições para que decisões de Estado sejam tomadas com horizonte de décadas, e não apenas até a próxima eleição.
É nesse ponto que voltamos ao petróleo. Se gerar apenas dólares para financiar despesas correntes, teremos aproveitado uma pequena parte da oportunidade. Se financiar infraestrutura, inovação, indústria, refino, petroquímica, engenharia, formação profissional e novas cadeias produtivas, transformaremos uma riqueza finita em capacidade produtiva permanente.
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O Brasil não precisa escolher entre responsabilidade fiscal e desenvolvimento. Precisa fazer uma coisa financiar a outra. Um Estado mais eficiente abre espaço fiscal. Uma economia mais produtiva amplia a arrecadação. O combate ao mercado ilegal recupera receitas. A defesa comercial protege empregos e investimentos. A agregação de valor transforma recursos naturais em indústria. E as reformas estruturantes reduzem o custo permanente do país.
O que precisamos agora é transformar riqueza em produtividade, produtividade em crescimento e crescimento em equilíbrio fiscal. A combinação do boom do petróleo com a inteligência artificial forma uma oportunidade histórica para isso. A verdadeira riqueza que o petróleo pode trazer para o Brasil não está debaixo do mar. Está na indústria, na tecnologia, na infraestrutura e na produtividade que conseguirmos construir com ele.
