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Qual é a biodiversidade que precisamos medir?

Há vários métodos para medir essa diversidade funcional. Ela oferece, portanto, uma informação diferente daquela fornecida apenas pela contagem de espécies

Entre os princípios que orientam a política estão a sustentabilidade ambiental, a conservação da biodiversidade e a participação e o engajamento social  -  (crédito: Gabriel Carvalho/Setur-BA)
Entre os princípios que orientam a política estão a sustentabilidade ambiental, a conservação da biodiversidade e a participação e o engajamento social - (crédito: Gabriel Carvalho/Setur-BA)

Por Carlos E. V.Grelle, professor da UFRJ e coordenador do PPBio/MCTi e Guarino R. Colli - Professor da UnB e coordenador do PPBio/MCTi

Nunca a biodiversidade foi tão valorizada. Governos e empresas reconhecem cada vez mais que a sociedade depende de ecossistemas saudáveis para garantir água, alimentos, a regulação do clima e a redução de riscos ambientais, incluindo o surgimento de zoonoses. A aproximação entre as agendas climática (IPCC) e de biodiversidade (IPBES) reforçou uma conclusão importante: conservar a natureza não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica e social.

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Por isso, foi muito positivo acompanhar, há poucos dias, o evento organizado pela CNI, CEBDS e Firjan para discutir temas que estarão no centro da próxima COP da Biodiversidade. Mas, para avançarmos de fato, é preciso ir além de frases como "o Brasil é um país megadiverso". Essa afirmação é verdadeira, porém insuficiente para explicar porque a biodiversidade é tão importante para o funcionamento dos ecossistemas e para os benefícios que proporciona à sociedade, incluindo o setor empresarial. É importante destacar também que não tem sido suficiente para gerar ações que resultem na redução da perda de biodiversidade.

Um dos desafios está justamente em como medimos a biodiversidade. Em muitas iniciativas de governos e empresas, inclusive nas discussões sobre créditos de biodiversidade e na divulgação de riscos relacionados à natureza, ainda predominam indicadores baseados no número total de espécies — conhecido como riqueza taxonômica —, na abundância ou no status de conservação das espécies.

Contar espécies é indispensável para responder a algumas perguntas; porém, não é suficiente quando precisamos de respostas sobre o funcionamento dos ecossistemas. Duas áreas podem abrigar o mesmo número de espécies e, ainda assim, funcionar de maneiras muito diferentes. Imagine, por exemplo, duas áreas com o mesmo número de espécies de morcegos. Em uma delas predominam espécies que dispersam sementes; na outra, espécies que polinizam flores. A riqueza de espécies pode ser a mesma, mas as funções desempenhadas por essas comunidades diferem.

É essa outra dimensão que a chamada diversidade funcional procura medir. Em vez de considerar apenas quantas espécies existem, ela considera características relacionadas ao papel de cada espécie no ecossistema. Nas plantas, por exemplo, podem ser relevantes características ligadas à fotossíntese, ao uso de nutrientes, à fixação de nitrogênio ou à área foliar. Nos animais, podem importar a dieta, o tamanho corporal, a forma de locomoção ou o papel como polinizadores, predadores e dispersores de sementes.

Há vários métodos para medir essa diversidade funcional. Ela oferece, portanto, uma informação diferente daquela fornecida apenas pela contagem de espécies. Isso é particularmente importante quando a biodiversidade passa a fazer parte das decisões empresariais, de investimentos e de políticas públicas. Se queremos avaliar adequadamente a contribuição da natureza para a produção de alimentos, a regulação do clima, a qualidade da água ou a regeneração das florestas, precisamos saber quantas espécies estão presentes, mas também o que fazem.

Para o setor econômico, essa distinção é decisiva. Empresas não apenas dependem da biodiversidade, mas também influenciam seu futuro por meio de decisões sobre investimentos, cadeias produtivas, uso do território e exploração de recursos naturais. Decisões baseadas em informações incompletas podem preservar números, mas não as funções ecológicas das quais a própria economia e a sociedade dependem. Incorporar diferentes dimensões da biodiversidade permite identificar melhor os riscos, evitar e reduzir impactos e orientar investimentos para alcançar resultados ambientais mais consistentes.

O Brasil tem uma oportunidade extraordinária de liderar essa discussão, e o setor econômico desempenha um papel central nessa liderança. Isso exige ir além do reconhecimento do valor da biodiversidade e incorporá-la, com base em informações científicas sólidas, aos processos decisórios. Proteger nosso patrimônio natural não significa apenas preservar uma lista de espécies. Significa também preservar as funções ecológicas que mantêm os ecossistemas em funcionamento e sustentam o bem-estar da sociedade.

A pergunta, portanto, não é apenas quanta biodiversidade temos, mas quais dimensões da biodiversidade estamos realmente medindo e usando na tomada de decisão.

 

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Por Opinião
postado em 01/09/2026 05:00 / atualizado em 01/09/2026 08:40
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