Artigo

Negacionismo mata

É selar o destino trágico de uma comunidade, de uma nação ou do planeta. É escancarar as portas para catástrofes climáticas e para o retorno de doenças há tempos controladas

 A man sits beside debris as he salvages belongings following flash floods at Devighat in Nepal's Nuwakot district on August 31, 2026. Nepal was burying on August 31 some of the hundreds of bodies retrieved after a deadly, tsunami-like flood crashed through the Himalayan region, sweeping away villages and leaving thousands still missing. Distraught families have packed rescue stations and hospitals in search of their missing relatives, while others have faced the grim task of identifying bodies at overflowing morgues. (Photo by Arun SANKAR / AFP)
       -  (crédito:  AFP)
A man sits beside debris as he salvages belongings following flash floods at Devighat in Nepal's Nuwakot district on August 31, 2026. Nepal was burying on August 31 some of the hundreds of bodies retrieved after a deadly, tsunami-like flood crashed through the Himalayan region, sweeping away villages and leaving thousands still missing. Distraught families have packed rescue stations and hospitals in search of their missing relatives, while others have faced the grim task of identifying bodies at overflowing morgues. (Photo by Arun SANKAR / AFP) - (crédito: AFP)

As imagens da parede de lama varrendo tudo o que encontrava pela frente no leito e nas margens do Rio Trishuli, na fronteira entre Nepal e Tibete, não me saem da cabeça. Não consigo conceber o horror vivenciado por milhares de pessoas que estavam no caminho da catástrofe. Com certeza, sabiam que não teriam a mínima chance de escapar com vida. As inundações de exatamente uma semana atrás foram um aviso cruel de que o planeta está à mercê de novas tragédias naturais provocadas pelo aquecimento global. De nada adianta os negacionistas refutarem ou tentarem desmentir a mudança climática. Ela existe, impacta bilhões de pessoas no mundo e põe fim às vidas de tantas outras.  

O Rio Trishuli não transbordou do nada. Não foi resultado do acúmulo de chuvas na cabeceira. Uma geleira de 600m de largura se desprendeu do alto de uma montanha. Isso não é um fenômeno atribuído ao acaso. A cada ano, as temperaturas aumentam na Cordilheira do Himalaia, tornando a neve menos espessa, provocando o recuo das geleiras e desgastando o permafrost, a camada do solo congelada. Ainda que existam fenômenos cíclicos naturais, as mudanças nas grandes montanhas são reflexo do aquecimento global, segundo estudiosos. São o produto de uma ação contundente e permanente do homem sobre a natureza. Reflexo da sanha pelo lucro, que destrói e corrói, ao despejar gases do efeito estufa na atmosfera e ao ignorar medidas de mitigação e adaptação climática. 

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Na edição de segunda-feira, publicamos, em Mundo, depoimentos de Kami Rita Sherpa, o nepalês que chegou ao topo do Everest 32 vezes, e de outros dois experientes alpinistas. Todos eles mostraram preocupação com as alterações no Himalaia. 

Outra variação do negacionismo científico, não menos grave, coloca em risco uma parcela da sociedade. Sem qualquer embasamento, autoridades e políticos associam a imunização a doenças e morte. Quem acredita nessas bobagens põe a própria saúde em perigo ao negligenciar as vacinas em nome de uma crença montada sobre falácias e discurso vazio. Curioso o fato de que o negacionismo científico seja uma ferramenta usada com frequência por alguns políticos. A normalização de inverdades para doutrinar a população deveria ser tratada como ato criminoso.

Durante a pandemia da covid-19, houve nítida preocupação mais em fazer propaganda da cloroquina e da ivermectina do que em agilizar a busca pela vacina. Tivessem as autoridades acelerado a compra dos imunizantes, talvez centenas de milhares de pessoas não teriam morrido. Nos Estados Unidos, milhares de casos de sarampo foram registrados nos últimos meses em cidadãos não vacinados. Quase sempre o negacionista contribui com a propagação de enfermidades contagiosas.

Negacionismo mata. Negacionismo é sinônimo de ignorância com propósito. Preferir não enxergar o óbvio e não acolher a ciência é o mesmo que tropeçar com uma venda nos olhos à beira do despenhadeiro. É selar o destino trágico de uma comunidade, de uma nação ou do planeta. É escancarar as portas para catástrofes climáticas e para o retorno de doenças há tempos controladas.

 

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postado em 02/09/2026 05:00
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