
Luciano Nakabashi — doutor em economia e professor associado da Fearp/USP
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A perda de posição do Brasil no ranking de renda per capita desde o início dos anos 1980 resulta de uma combinação de fatores: atraso educacional, baixa integração internacional, instabilidade macroeconômica, pouco investimento em infraestrutura, desigualdade de oportunidades e ambiente de negócios complexo.
A educação é um dos pontos centrais. No início dos anos 1980, a escolaridade média do brasileiro era baixa mesmo em comparação com parte da América Latina. O Brasil demorou a universalizar o ensino e ainda enfrenta problemas de qualidade. Além disso, a formação das crianças depende não só da escola, mas também do ambiente familiar e social. Crianças de famílias pobres, com menor acesso à saúde, à segurança, a apoio psicológico e a estímulos, começam a vida em desvantagem. Por isso, a agenda educacional deve incluir apoio às famílias vulneráveis e políticas que ampliem capital humano e emocional.
Outro fator foi o modelo de industrialização voltado ao mercado interno e baseado na substituição de importações. A baixa integração internacional e a proteção excessiva reduziram os incentivos à eficiência, inovação e competitividade. Esse modelo também foi financiado por capital externo. Quando a liquidez internacional diminuiu no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, a vulnerabilidade brasileira ficou evidente, culminando na crise da dívida e na chamada década perdida.
No centro desses problemas, está a produtividade. Um país eleva sua renda per capita de forma sustentável quando consegue produzir mais e melhor com os recursos disponíveis. No Brasil, a baixa qualificação da mão de obra, a limitada abertura comercial, a indústria pouco competitiva, a infraestrutura deficiente e o ambiente de negócios complexo restringiram esse avanço.
A burocracia, a complexidade tributária, a instabilidade das regras e os altos custos administrativos também desestimulam investimentos. O problema da tributação não é apenas a carga elevada, mas a complexidade do sistema, que consome tempo, gera litígios e cria distorções. Economias que tiveram grandes avanços de renda utilizaram comércio exterior, competição e cadeias globais de produção como instrumentos de aprendizado, especialização e incorporação tecnológica. O Brasil permaneceu relativamente fechado e menos exposto à concorrência internacional.
Outro obstáculo é o baixo investimento. A reduzida poupança doméstica, a incerteza fiscal e os juros elevados dificultam a formação de capital. O governo também tem pouco espaço para investir em infraestrutura devido ao peso das despesas obrigatórias. Gargalos em transporte, energia, portos e ferrovias aumentam custos e reduzem a competitividade.
A questão fiscal está diretamente ligada ao crescimento. O aumento das despesas públicas, inclusive previdenciárias diante do envelhecimento populacional, pressiona a dívida e a tributação. Quando o setor público absorve parcela elevada da poupança disponível, reduz-se o espaço para o investimento privado e aumentam os juros de médio prazo.
Há ainda uma dimensão distributiva e institucional. O Brasil convive com grandes desigualdades de renda, oportunidades e poder político. Grupos organizados conseguem preservar benefícios, subsídios, proteções e regras favoráveis, enquanto grande parte da população arca com os custos de um Estado caro e pouco eficiente. Essa estrutura de privilégios distorce incentivos, reduz a concorrência e dificulta reformas.
A reforma tributária representa avanço na simplificação, desde que sua implementação não seja esvaziada por novas exceções. Também é necessário fortalecer a sustentabilidade das contas públicas e enfrentar os desafios previdenciários decorrentes da mudança demográfica. Melhorar a eficiência do Estado e combater a corrupção são essenciais, pois a corrupção reduz a confiança nas instituições, distorce regras e prejudica a economia.
O atraso brasileiro não decorre da falta de potencial, mas de escolhas, instituições e prioridades que limitaram o crescimento da produtividade. O foco das políticas públicas deve estar nas pessoas, na igualdade de oportunidades, na educação de qualidade, na integração internacional, na melhoria do ambiente de negócios e na ampliação dos investimentos em infraestrutura. O país precisa reduzir privilégios e criar condições para que todos, sobretudo as famílias vulneráveis, possam desenvolver suas capacidades.
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