
Luiz Alberto Silva — cientista político, secretário nacional da Nova Frente Negra Brasileira
Somos 56% da população brasileira. Essa porcentagem não se alinha com a nossa presença em espaços de decisão, não só do poder público, mas também da iniciativa privada. Nas grandes empresas, no poder de mando, não passamos de 5%. Entre 2018 e 2025, o número de parlamentares negros cresceu, mas a violência política contra eles triplicou. Reduzir nosso povo à resistência é aceitar o lugar que nos querem colocar e controlar. Vivemos o momento da inclusão simbólica. Comemora-se "o primeiro ou a primeira negra" a isso ou àquilo. Resistir é responder às violências que sofremos diariamente numa sociedade organizada pela "branquitude". Não é suficiente.
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Estamos vivos por causa da resistência. Honrar os quilombos, imprensa negra, cotas, movimentos sociais é nosso dever. Foram trincheira, foram abrigo, foram importantes, e ainda são, nos momentos em que o Estado nos nega cidadania. Resistir é responder a uma violência, uma exclusão, um ataque. Nossa missão hoje é também conviver, transformar e organizar os espaços de poder. Quando só nos chamam para falar de racismo e aceitamos, estamos na resistência. Quando não falamos de organização, tecnologia ou orçamento, seguimos na trincheira e não nos lugares em que se decide a sorte da nação.
Conviver no poder é ter o povo negro tomando parte determinante nas decisões. Representação apenas não é suficiente. A presença, por si só, não é suficiente. O domínio da pauta é que importa. Poder é criar a regra, montar o orçamento, escolher o que vira currículo escolar, decidir qual é a inovação e a tecnologia aplicada. Está provado que os "departamentos" de diversidade viraram guetos sem poder algum de decisão. É uma lógica que continua branca. Disputar poder e espaços é falar de política monetária, de biotecnologia, de fusões empresariais, de futuro... Conviver no poder não é ser obrigado a fazer o "teste do pescoço" nem ter que pedir licença. É disputar sentidos e consensos no campo das ideias. É ter corpos e mentes negros a tomar decisões que importam ao país.
O negro precisa criar aquilombamento institucional. Ninguém consegue se manter no poder sozinho. Não suba calado. Não suba só. Faça circular a informação. Cuide e inclua os seus iguais. Não deixe a porta se fechar atrás de você. A branquitude faz isso há séculos, e o chama de networking. Precisamos fazer a disputa epistêmica. Não basta estar na universidade. É preciso disputar o conhecimento. Mais ainda: citar e honrar nossas fontes pretas. De Lélia Gonzalez a Sueli Carneiro o caminho foi aberto. Cabe a nós ocupá-lo e alargá-lo. Devemos também disputar o imaginário, porque o poder também é estético. É reafirmar a beleza negra, o sucesso negro, a tecnologia que desenvolvemos e o que, para nós, é o futuro. Senão, nossa presença sempre será vista como exceção.
É claro que existem as contradições: a síndrome de minoria, do impostor, a solidão institucional, que, na verdade, é estrutural. Ocupar não significa que a luta acabou, significa que ela mudou de endereço. A disputa de poder se dá nos locais em que se assinam os contratos. Nesse ambiente, tudo se torna mais perigoso, pois neste lugar não existe o "negro permitido", mas, sim, o negro governando. Mas estaremos lá! Conosco, sem dúvida, estarão nossos ancestrais. Ninguém foi mais estrategista do que eles. Nenhum negro pode seguir sem eles. Estão na nossa "memória celular". Vão nos lembrar que não queremos favor. Queremos o direito ordinário. Queremos até o direito de ser medíocre sem que isso nos coloque como padrão de fracasso de toda uma raça. Enfim, o direito de ser gênio sem ser considerado exceção, para fundamentar motivos da nossa exclusão. Queremos até o direito de errar, acertar, criar e dirigir.
Resistimos para existir, e isso nos custou séculos. Agora existimos para conviver, criar e governar. Governar o orçamento, a estética, o futuro. Não queremos ser exceção heroica. Somos Zumbi dos Palmares. Somos Dandara. A força dos ventos, das marés, das correntezas dos rios, do sol e da chuva. A trincheira foi abrigo. O poder é destino.
A pergunta não é mais se vamos resistir. Mas sim: qual espaço de poder vamos aquilombar hoje?
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