
Fernanda Seidel — gerente de Avaliação e Prospecção do Itaú Social. Graduada em economia pela FEA-USP e mestre pela Unicamp
Quando se discute a aprendizagem em matemática no Brasil, é natural que a atenção se volte para avaliações, currículos, políticas públicas e metas educacionais. Esses instrumentos são indispensáveis, mas é preciso também considerar a experiência de quem transforma essas diretrizes em prática pedagógica.
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A Escuta Nacional dos Professores e Professoras que Ensinam Matemática, recém-lançada pelo Ministério da Educação (MEC), com apoio técnico do Itaú Social e em articulação com outras instituições brasileiras, traz uma contribuição inédita nesse sentido. Com a percepção de mais de 57 mil docentes de diferentes etapas da educação básica, a pesquisa revela que parte importante da solução já está presente nas escolas, na forma de um corpo docente engajado e comprometido. O desafio, portanto, é criar as condições para que esse potencial se converta em aprendizagem para todos.
A escuta mostra que 94% dos professores consideram seu trabalho significativo e com propósito. Em um cenário em que apenas 28% dos alunos de 15 anos alcançaram o nível 2 de proficiência em matemática em 2025, considerado o patamar mínimo de aprendizado (a média dos países da OCDE na disciplina é 65%), segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), esse dado está longe de ser trivial. Ele sugere que o ponto de partida para a transformação é uma base profissional que acredita no poder da educação mesmo diante das exigências cotidianas.
Esse achado reposiciona uma discussão frequentemente marcada pelo deficit. A ideia não é convencer professores da importância da matemática ou da necessidade de melhorar a aprendizagem. Eles já reconhecem essa missão. A questão é garantir que a disposição para ensinar e aprender continuamente encontre suporte suficiente para produzir os resultados desejados.
De acordo com a pesquisa, mais de 74% dos docentes afirmam conseguir ensinar estudantes com dificuldades de aprendizagem, mas apenas cerca de 30% demonstram confiança plena nessa capacidade. O dado aponta para a necessidade de fortalecer a segurança pedagógica dos professores e ampliar as condições para enfrentar os obstáculos da aprendizagem com mais confiança.
A escuta também mostra que os professores já incorporam elementos importantes de uma visão contemporânea de ensino. Quase a totalidade reconhece que a matemática exige pensamento criativo e 95% a enxergam como uma ferramenta para compreender e resolver problemas do mundo real. Entre 80% e 85% afirmam conectar regularmente os conteúdos aos conhecimentos prévios e ao cotidiano dos estudantes. Trata-se de um sinal importante de alinhamento com abordagens que valorizam a construção de sentido e o protagonismo dos estudantes.
Ao mesmo tempo, práticas mais investigativas ainda aparecem com menor frequência. Projetos práticos, resolução recorrente de problemas e pesquisas orientadas seguem menos presentes do que poderiam. Essa distância entre intenção pedagógica e prática cotidiana não deve ser interpretada como resistência à inovação, mas como reflexo das limitações concretas enfrentadas pelas escolas e pelos docentes para transformar convicções pedagógicas em experiências de aprendizagem consistentes.
É nesse ponto que a formação docente ganha centralidade. Nos Anos Iniciais (1º ao 5º ano), 32% dos professores relatam não se sentir plenamente seguros em alguns conceitos matemáticos, enquanto apenas 40% afirmam ter recebido formação nos conteúdos específicos da disciplina. Os resultados sugerem fortalecer a articulação entre domínio de conteúdo, didática e prática de sala de aula.
A formação continuada surge como uma das principais oportunidades de melhoria. Ao longo da carreira, professores precisam de espaços de experimentação, troca de experiências, reflexão sobre a prática e aperfeiçoamento profissional, conectados à realidade das escolas para produzir impacto efetivo na aprendizagem.
Uma agenda propositiva para o ensino de matemática no Brasil passa, portanto, por reconhecer que desenvolvimento profissional é parte essencial da qualidade da educação. Isso significa fortalecer políticas que articulem formação, acompanhamento pedagógico, colaboração entre pares e valorização docente. Significa também compreender que diferentes momentos da carreira demandam diferentes formas de apoio.
A principal notícia dessa escuta é que a base para esse avanço já existe. Professores demonstram propósito, compromisso e disposição para aprimorar continuamente suas práticas. Escutá-los não é apenas um exercício de diagnóstico, mas reconhecer que a educação se fortalece quando aqueles que vivem seus desafios cotidianos também ajudam a iluminar seus caminhos. Entre números, avaliações e metas, a pesquisa nos lembra de que toda aprendizagem nasce de uma relação humana. E é nessa relação, renovada a cada aula, que reside uma das maiores possibilidades de transformação da matemática no Brasil.
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