
Temperaturas acima de 40ºC devem ser registradas em oito unidades da Federação nestes dias que antecedem o primeiro turno das eleições gerais, estima o Inmet. São cerca de 102 milhões de pessoas, quase metade da população brasileira, vivendo em estados com situação de alerta devido ao calor intenso. Gente sentindo na pele e na rotina os efeitos do fenômeno climático que já deixou de ser atípico, mas que pouco sabe sobre como quem terá o nome exibido nas urnas eletrônicas pretende enfrentar esse problema.
Levantamento divulgado, neste mês, pelo Observatório do Clima (OC) mostra que os planos de governo de quase todos os presidenciáveis não dão a importância devida à crise climática e ambiental. Entre os seis melhores posicionados nas pesquisas de intenção de voto, Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, tem a proposta considerada mais "verde" pelo OC, com metas climáticas definidas — como aumento das fontes renováveis e o plano de zerar o desmatamento —, mas uma gestão atual que incentiva a exploração de novas fronteiras petrolíferas — a exemplo da Margem Equatorial.
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Flávio Bolsonaro, por sua vez, traçou um projeto de governo que não reconhece a existência da crise climática e, na avaliação do OC, tem apenas uma proposta positiva em relação ao tema: a universalização do saneamento básico. Os outros candidatos avaliados — Augusto Cury, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado — trazem propostas vagas para os oito grandes eixos estudados: mudanças climáticas; energia; desmatamento; proteção de povos e comunidades tradicionais; agronegócio sustentável; mineração e infraestrutura; governança ambiental e climática; e oceano e zona costeira.
Seria cômico se não fosse trágico o fato de nenhum dos presidenciáveis fazer referência a medidas de mitigação do El Niño, justamente o responsável pela onda de calor que assola no momento parte significativa do país e pelos temporais em municípios da Região Sul. É sempre bom reforçar que se trata de um fenômeno climático natural antigo, mas que tem sido anabolizado pelo aquecimento do planeta. Também não se pode perder de vista o fato de que o Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa da Terra e, portanto, tem a obrigação civilizatória de enfrentar esse problema com seriedade.
É evidente que o combate à crise climática e ambiental não se resume a decisões e intenções de quem chega ao Planalto. Espera-se uma resposta articulada, com comprometimento dos Três Poderes, nas esferas federal, estadual e municipal, de empresas e da sociedade civil. Governadores têm autonomia para conceder incentivos fiscais para empresas poluentes ou ambientalmente sustentáveis, para investir em infraestruturas verdes ou fazer vistas grossas à urbanização desordenada. Da mesma forma, a depender da toada, deputados e senadores podem criar leis para proteger biomas e destinar verbas públicas para prevenção de desastres ou flexibilizar financiamentos ambientais e enfraquecer estruturas de fiscalização.
Parte importante dessa rede — ocupantes do Executivo e Legislativo federal e estadual — começa a ganhar nova forma a partir deste domingo. Ainda que a questão climática e ambiental não tenha tido o destaque merecido nas campanhas, ela é de interesse do povo. Outro estudo do OC divulgado também neste mês mostra que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Se não tem seus anseios atendidos, os eleitores podem — e devem — dar a resposta nas urnas.
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