Artigo

As mulheres

Poucos povos têm tantas heroínas a homenagear na crônica de seu passado como o povo brasileiro. Este país continuará crescendo, consolidando-se em sua grandeza, porque nele há mulheres que lutam

José Sarney  Ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras 

Este país se fez também com o sacrifício, a coragem e a grandeza de suas mulheres. Destemidas no povoamento do grande interior, ergueram troncos familiares que se transformaram nos rijos esteios da nacionalidade. Forjadoras da dura ética dos sertões, atravessaram as horas coloniais com altiva presença nos movimentos de rebeldia patriótica.

Poucos povos têm tantas heroínas a homenagear na crônica de seu passado como o povo brasileiro. Houve as que empunharam armas, Anita Garibaldi e Maria Quitéria, e as que souberam influir com seus conselhos políticos na construção do Estado, e esse é o caso de Leopoldina.

As heroínas mais corajosas, no entanto, são aquelas que os documentos históricos normalmente esquecem. As mulheres do povo, sertanejas arrojadas, escravos nos eitos, donas de casa.

Elas continuam, hoje, a edificar a nação. A construir, com afeto e dignidade, as famílias que conduzirão este país a seu futuro.

Vejo-as, lado a lado com os homens, conquistando, com destemor, seu espaço em uma sociedade em mudança.

Se todos os tempos são difíceis, os nossos trouxeram desafios novos ao homem. Vivemos sob o temor do conflito nuclear e imersos em uma situação de inaceitável injustiça. Essa injustiça se manifesta nas relações internacionais e no convívio entre as classes da sociedade.

Na luta pela justiça entre os homens, as mulheres têm ocupado papel de vanguarda. Elas reivindicam presença maior nos centros de decisão política, e é bom que o façam. Estou certo de que os parlamentos estarão mais abertos à postulação da fraternidade se contarem com mais mulheres.

São fortes em nossa história a firmeza e determinação das mulheres. Donas de casa, trabalhadoras, militantes políticas estiveram com o meu governo na Presidência da República na primeira luta contra a especulação. Nesse cenário, as mulheres desempenharam um papel central e decisivo na articulação e execução do movimento.

No primeiro grande esforço nacional para controlar a hiperinflação, remanescente dos governos militares, as mulheres realmente deram uma bonita demonstração de cidadania. Naquela época, a divisão tradicional de papéis de gênero ainda colocava sobre as mulheres a responsabilidade primária pelas compras da casa e pelo orçamento doméstico. Assim, foram as mulheres os primeiros cidadãos a notar o desrespeito ao congelamento nos supermercados, feiras e açougues.

Então, elas saíram às ruas para ajudar o governo na restauração do senso comum. Entenderam, imediatamente, que a moeda não podia ser uma ficção, mas devia manter a intrínseca dignidade, desde que nela estão, em essência, parcelas do trabalho humano.

Surgiu assim o movimento dos fiscais do Sarney. Foi o primeiro movimento de participação política de um povo que acabara de sair da ditadura militar (1964-1985). Dessa forma, como cidadãos livres, ser "fiscal do Sarney" representava a primeira experiência de engajamento público após os anos de repressão. E nessa luta as mulheres tiveram seu protagonismo inegável.

Aquela luta não foi inglória. Ao contrário, foi o início da glória civil do brasileiro verdadeiramente patriota.

Ali, a história mudou de rumo e, na Carta Constitucional, conseguimos garantir mais direitos aos cidadãos. Antes, em 10 de setembro de 1985, instalei o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

Elas são a metade do céu. O desconhecimento dessa verdade, além de clamorosa injustiça, constitui também um ato de privar qualquer país de uma poderosa fonte de energia e criação: as mulheres.

Sempre considerei fundamental a participação plena da mulher na sociedade brasileira, não só em sua liderança familiar, mas também em todos os campos profissionais, inclusive na política. A igualdade plena entre mulheres e homens passa também por um esforço continuado de superação das profundas desigualdades sociais que infelizmente ainda acompanham a vida da mulher brasileira.

Hoje, fico muito satisfeito com o trabalho que se desenvolveu desde então. Há muito o que fazer ainda. Na verdade, as sociedades só vivem se estiverem em constante movimento, em busca da justiça, da fraternidade, da igualdade sob o direito.

Este país continuará crescendo, consolidando-se em sua grandeza, porque nele há mulheres que lutam, este lado generoso da humanidade. E permitam-me dizê-lo: seu lado mais belo.

Agora o Maranhão vai contribuir para que as mulheres tenham uma boa representação no Senado: Roseana, com sua capacidade de articulação, experiência e seu espírito público. Sem dúvida, uma grande liderança.

 

 

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