Ronald Siqueira Barbosa — professor e engenheiro de telecomunicações, presidente do Instituto Nacional Afro-Brasileiro (Inabra)
Após a formação final do quadro de candidatos para mandatos majoritários e proporcionais às eleições gerais deste ano, baseado na Lei 9.504/97, que trata das regras eleitorais no país, o Instituto Nacional Afro-Brasileiro (Inabra) manifesta perplexidade e indignação depois de verificar os perfis das nominatas definidas nas convenções das legendas em razão da sobeja lacuna de concorrentes que, de fato, representem o perfil étnico da população nacional com evidente ausência de afrodescendentes.
É fato que o Brasil, por meio da Constituição Federal e da legislação em vigor, confere liberdades para que as legendas partidárias indiquem e escolham representantes ao pleito, momento icônico da democracia que, neste ano, vai definir quem serão presidente e vice da República, senadores e deputados federais e estaduais/distritais.
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O que se espera é que as candidaturas resultem de critérios como lisura, ética e respeito à complexidade da sociedade do país, a fim de que os escolhidos de fato representem o povo. Até o momento, o Inabra não verifica nas nominatas esses pilares condizentes com as demandas mais prementes da nação brasileira.
Passados 138 anos da Abolição da Escravatura e 137 anos do advento da República, não nos permitimos ser pusilânimes ao constatarmos que os partidos estão distantes da missão de servir melhor ao país, dada a prerrogativa de selecionar homens e mulheres que tenham envergadura moral, política e social para ocuparem cargos de tamanha importância no cenário nacional.
A guisa de comparação, é alvissareiro recordar a visita que o imperador do Brasil, Dom Pedro II — homem culto, de formação inquestionável e de profundo interesse em modernizar e instalar sistemas de telefonia e de energia elétrica — fez no ano de 1876, na comemoração do centenário de independência dos Estados Unidos da América, quando cumpriu agenda de três meses naquele país.
A programação do imperador em terras norte-americanas influenciou as tratativas para a libertação dos escravizados no Brasil. Até porque a medida contribuiu para o surgimento de uma nova classe social, ou seja, a do operariado, coerente com os processos econômicos do fim do século 19. Serviu também para nos conscientizarmos da importância dos processos eleitorais.
Importante salientar que a evolução histórica de então havia produzido duas revoluções industriais e que a nossa classe de empregados só ingressaria no processo de produção tardiamente, ficando de fora dos processos de poupança e de consumo. Mesmo assim, com a criação do piso salarial pela Constituição de 1934, mais tarde chamado de salário mínimo, houve otimismo, pois acreditou-se que, daí em diante, trabalhadores estavam amparados para conseguir no embate com os patrões a garantia de um vencimento digno.
Ocorre que o tempo demonstrou a falta de compromisso da classe política e dos governos em fazer valer a força do salário mínimo que, mesmo hoje, nem de longe corresponde a um valor suficiente para as necessidades dos assalariados e suas famílias. Com o passar do tempo, a população negra permanece num isolamento socioeconômico, fruto da falta de interesse das elites dominantes na real solução do fosso racial vigente no país, quer à direita, quer à esquerda.
Inquietante constatar que a formulação do processo eleitoral não vem se pautando na escolha de candidatos para atender ao anseio popular. O que se verifica são negociações questionáveis no momento da definição dos nomes para a disputa em que o poder econômico de alguns líderes despreza o bom senso na indicação de nomes, nos acordos, enfim, num processo que demonstra total desprezo pelos pilares que deveriam sustentar o que esperamos de uma nação democrática.
Não vemos representação proporcional da população negra que historicamente contou — e conta — com muitas pessoas em condições de estar à frente de mandatos promissores. Queremos candidatos que pensem a inclusão de 120 milhões de pessoas que estão excluídas dos processos de poupança e de consumo.
Uma das pautas do Inabra diz respeito ao tema das concessões, que tem a ver com propiciar à população negra reais condições de empreender e fazer parte do empresariado do país, da mesma forma que governos passados investiram em outros segmentos. As concessões, são antecedidas, portanto, de uma sensibilidade política quanto a essas propostas estruturantes. Daí o alerta num momento de definição da representatividade. Por isso, frisamos: "candidaturas e votos negros importam".
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