
Por Renata Rivetti, Pesquisadora da ciência da felicidade, fundadora da Reconnect Happiness at Work e representante do Brasil no movimento 4 Day Week Global
Todo ano, quando chega setembro, voltamos a falar sobre prevenção ao suicídio. A campanha é necessária e cumpre um papel importante ao reduzir o estigma em torno da saúde mental. Mas talvez exista uma pergunta anterior a essa conversa: em que momento passamos a considerar normal viver emocionalmente adoecidos?
Nos últimos dias, o país assistiu, mais uma vez, a episódios de violência extrema em ambientes de trabalho. As investigações ainda precisam esclarecer motivações e responsabilidades, e qualquer tentativa de estabelecer relações diretas seria precipitada. Mas há algo que esses casos expõem independentemente de seus desfechos: eles nos chocam porque são extremos, embora os sinais de sofrimento que os antecedem, muitas vezes, já tenham deixado de causar estranhamento.
O que me inquieta não é apenas o crescimento dos indicadores de saúde mental, mas, sim, a velocidade com que aprendemos a conviver com eles.
Na pesquisa O Mapa da Felicidade Real dos Brasileiros, identificamos que 33% dos entrevistados sentem ansiedade com frequência. Outros 29% convivem regularmente com o estresse. Entre os jovens, 21% relatam sentir solidão. São números que deveriam provocar uma discussão profunda sobre o tipo de sociedade que estamos construindo.
Porém, em vez disso, frequentemente produzem uma reação quase automática: "eu também". Quando a ansiedade deixa de ser percebida como um sinal de alerta e passa a funcionar como um elemento de identificação coletiva, alguma coisa mudou. Não apenas na saúde das pessoas, mas na forma como entendemos o que é uma vida normal.
Vivemos em uma época que transformou a exaustão em demonstração de comprometimento. Estar sempre ocupado tornou-se sinônimo de relevância. A disponibilidade permanente passou a ser confundida com dedicação. Até o descanso precisa justificar sua existência porque promete aumentar a produtividade do dia seguinte. O bem-estar, paradoxalmente, também entrou nessa lógica.
Nunca houve tantas soluções para dormir melhor, controlar o estresse, aumentar a concentração ou recuperar energia. O mercado do wellness cresce rapidamente, oferecendo ferramentas que podem, sim, melhorar a vida de muitas pessoas. O problema começa quando passamos a tratar o autocuidado como mais uma competência individual a ser desenvolvida, enquanto quase nada muda nas condições que produzem esse adoecimento.
Meditamos para suportar jornadas excessivas. Dormimos melhor para continuar trabalhando mais. Aprendemos técnicas para administrar a ansiedade sem discutir por que tantas pessoas vivem ansiosas. Continuamos tratando o sintoma, mas evitamos conversar sobre a causa.
Não se trata de responsabilizar apenas o trabalho ou apenas as redes sociais. A realidade é mais complexa do que isso. Mas é impossível ignorar que estamos vivendo uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente: relações mais superficiais, hiperconectividade, excesso de comparação social, perda de espaços de convivência, dificuldade crescente de estabelecer limites entre vida pessoal e profissional e uma sensação permanente de insuficiência.
Criamos uma sociedade que exige enorme capacidade de adaptação emocional, mas dedica pouca energia a discutir os ambientes que estão exigindo essa adaptação.
A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de um bilhão de pessoas convivam com algum transtorno mental no mundo. Esse dado costuma aparecer acompanhado de recomendações sobre tratamento. Mas, talvez, esteja faltando uma pergunta complementar: o que estamos fazendo para reduzir as condições que favorecem esse adoecimento?
Essa discussão começa a ganhar espaço em diferentes países. Há debates sobre restrições ao uso de redes sociais por crianças e adolescentes, experiências com novos modelos de jornada de trabalho e uma compreensão cada vez maior de que saúde mental não depende apenas das escolhas individuais, mas também da forma como organizamos a vida em sociedade.
Os resultados da nossa pesquisa revelam outra aparente contradição. Apesar da ansiedade, do estresse e da solidão, os brasileiros continuam se percebendo como um povo feliz. Isso não diminui a gravidade dos indicadores. Revela, antes, nossa extraordinária capacidade de encontrar sentido nas relações, na família, na esperança e na convivência.
- Leia também: Alerta para a saúde mental
Mas existe uma diferença importante entre resiliência e resignação. A resiliência nos ajuda a atravessar tempos difíceis. A resignação nos faz acreditar que eles são inevitáveis. Talvez o maior desafio deste Setembro Amarelo seja justamente esse.
Não apenas ampliar o acesso ao cuidado quando alguém já está adoecido, mas recuperar nossa capacidade coletiva de estranhar aquilo que nunca deveria ter se tornado normal. Porque uma sociedade começa a mudar não quando aprende a conviver com o sofrimento, mas quando deixa de aceitá-lo como parte inevitável da vida.

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