A raiva é uma emoção humana e legítima, tantas vezes inevitável. Não se confunde com agressividade, que é uma resposta (não a melhor) à raiva ou a algum outro sentimento, como o medo. É perceptível e crescente, nas últimas semanas, que o nível coletivo de raiva está beirando o pico. "Como assim as pessoas vão votar em fulano? O que explica a ignorância de sicrano? De onde vem essa cegueira coletiva? Por que as pessoas acreditam tanto em mentira?" são alguns dos questionamentos que ouço, leio e, confesso, comungo em tantos momentos durante esta campanha eleitoral.
Na ausência de uma explicação plausível para algo que consideramos inadmissível, deixamos fluir o sentimento. Alguns de nós explodem, outros implodem, sufocam e até adoecem. O problema sempre será o que se faz com a raiva e para onde ela nos conduz. Tão bom quando ela vem e nos faz sacudir alguém entorpecido, que precisava justamente de um safanão, mesmo que seja digital. Mas é preciso cuidar para que o "acorda" não descambe para a violência, algo que já estamos vendo acontecer, inclusive, no ambiente físico. Tem que canalizar esse sentimento para algum lugar — e a urna é um bom lugar. Votar certo, de acordo com a consciência, é o melhor que podemos fazer por nós mesmos, além de lutar por quem acreditamos.
O Brasil vive um sismo de ideias, talvez o maior de sua história republicana. A ruptura já aconteceu. Temos duas parcelas de um Brasil traumatizado, cada uma tentando segurar suas crenças em bases distintas de uma política que já não aparece como capaz de resolver os grandes problemas na nação — e agora ainda nos apresentam um Supremo Tribunal Federal com reputação jogada ao vento.
Quem vai resolver nossos problemas, afinal? A verdade é que nossos problemas nem sempre parecem iguais, assim como não são nossas casas, contas bancárias, necessidades. Mas, senhoras e senhores, é a política, sim, que resolve boa parte dos dilemas. Resolve a fome, o desmatamento, a segurança, a liberdade, a educação. Isso aí é, sim, problema de todos. O que falta é a consciência sobre o valor do coletivo, de um povo, de uma nação.
Com tanta informação e desinformação circulando, tem gente apenas fechando os feeds e os ouvidos e decidindo voto antecipadamente. Acho que não é o momento de se alienar. Para passar raiva com mais conforto, eu apelo a Dom Helder Câmara. Ontem mesmo, enquanto escrevia, ouvi mais uma vez no Spotify sua palavra no Podcast do Dom — Um olhar sobre a cidade: "Se discordas de mim, tu me enriqueces"; "Fiquemos em alerta para não achar formidáveis apenas aqueles que só falam o que concordamos". São pensamentos que denotam enorme sabedoria.
Um convite ao diálogo é sempre algo bom, ainda mais vindo de um religioso…. Mais do que palavras, fico com o exemplo do arcebispo de Olinda e Recife, a quem tínhamos o hábito, lá em casa, de ouvir as sábias reflexões matinais, de 1974 a 1983, na Rádio Olinda: ele fez a escolha pela defesa dos pobres, pela bandeira contra a ditadura, pela não violência. Estou com ele e vou continuar tentando dialogar, apesar da tensão pré-eleitoral.
