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O custo invisível do que jogamos fora

O custo médio anual do desperdício para uma família de três pessoas chega a cerca de R$ 1.700, valor aproximado do salário mínimo

O debate público precisa focar no que antecede o descarte: a prevenção.  -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O debate público precisa focar no que antecede o descarte: a prevenção. - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Rafaela Vieira — gerente de Relações Institucionais e Políticas Públicas do Pacto Contra a Fome

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Se o desperdício global de alimentos fosse um país, ele seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. O dado alarmante dá a dimensão do desafio ressaltado no Dia Internacional de Conscientização sobre a Perda e o Desperdício de Alimentos, lembrado nesta terça-feira, 29 de setembro. Mais do que discutir o destino do lixo orgânico, o debate público precisa focar no que antecede o descarte: a prevenção. 

No Brasil, cerca de um terço de todo o alimento produzido é descartado, chegando, anualmente, a 55 milhões de toneladas de alimentos em toda a cadeia, segundo levantamento do Pacto Contra a Fome em parceria com a consultoria Integration. Apesar da incoerência de descartar comida enquanto um a cada quatro brasileiros convive com a insegurança alimentar, os dados também demonstram que temos um amplo espaço para a implementação de  medidas de prevenção. 

E elas começam na ponta, já a partir da colheita, e seguem pelas etapas de armazenamento, transporte, manufatura e abastecimento, processos que levam ao lixo 72,2% de tudo que é desperdiçado. Para se ter uma ideia, apenas nas Centrais de Abastecimento (Ceasas) são jogadas fora 340 mil toneladas de alimentos ao ano, especialmente frutas, verduras e legumes, representando perdas estimadas em R$1,5 bilhão anuais. 

Práticas inadequadas de colheita, máquinas e equipamentos desatualizados, transporte e armazenamento inadequados são alguns dos fatores que conduzem às perdas. As soluções, neste caso, começam com a adequação do tempo de colheita e melhoria nas práticas aplicadas a este processo e ao manuseio. 

Além disso, implementar novas formas de comercialização de produtos frescos, como o incentivo à venda de alimentos “feios” e políticas de redistribuição daqueles próprios para o consumo ou o incentivo a práticas de reaproveitamento são algumas das medidas possíveis e de mais fácil implementação. 

Já em casa, mudanças de hábitos simples, como o planejamento das compras e das refeições, além do armazenamento adequado para prolongar a vida útil dos alimentos, podem trazer contribuições significativas para evitar o desperdício e também para o bolso do consumidor. O custo médio anual do desperdício para uma família de três pessoas chega a cerca de R$ 1.700, valor aproximado do salário mínimo. 

Transformar este cenário requer do setor público políticas públicas de incentivo e, do privado, maior conscientização. Já para os indivíduos é necessária uma mudança consciente de hábitos: sair do automático e refletir sobre as compras e as atitudes cotidianas relacionadas aos alimentos. Desconstruir a cultura da abundância que faz parte das casas brasileiras, seja enchendo prateleiras com produtos que jogamos fora depois de vencidos, seja nas panelas, em almoços cotidianos ou nas recepções de família, cuja fartura quase sempre acaba em comida jogada fora. 

Desperdiçar alimentos traz, além de um dilema ético, um duplo efeito negativo ambiental e financeiro. Todos os dias o equivalente a 1 bilhão de refeições vai para o lixo em todo mundo, causando perdas que vão além das sobras nos pratos. Além dos custos financeiros que chegam a US$ 1 trilhão, o desperdício de alimentos responde por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, mais do que toda a aviação mundial somada, trazendo ainda mais complexidade à já crítica equação fome e mudanças climáticas.  

Não existe solução única para um problema que nasce em pontos tão diferentes da cadeia. Mas existe uma escolha que o Brasil ainda não fez: tratar a prevenção ao desperdício como política de Estado e não como ação de boa vontade de quem doa, recicla ou planeja melhor as compras. Enquanto isso não acontece, o país seguirá debatendo, todo 29 de setembro, o que fazer com a comida que sobra em vez de perguntar por que ela continua sobrando. 



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Por Opinião
postado em 01/10/2026 19:45
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