ARTIGO

120 anos não podem ser o nosso prazo

Participação política, presença feminina nos espaços de poder, segurança no ambiente público e autonomia quase não aparecem nos programas de 12 candidaturas à Presidência do Brasil

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Bruna Ancheschi — mestre em RH e gestão do Conhecimento, gerente de Marketing da AASP, membra do Comitê de Diversidade do Insper e do Instituto Elas

A desigualdade entre homens e mulheres talvez seja uma das contradições mais persistentes do nosso tempo. O mundo nunca esteve tão perto da paridade de gênero e, ainda assim, mantido o ritmo atual de avanço, serão necessários 120 anos para alcançá-la, o que significa que uma menina nascida hoje não viverá em um mundo com paridade de gênero.

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A estimativa é do Global Gender Gap Report 2026, do Fórum Econômico Mundial. O índice mostra que o mundo percorreu 69,2% da distância até a paridade entre homens e mulheres. Em relação ao ano anterior, o avanço foi de apenas 0,4 ponto percentual. Em duas décadas, considerando os países acompanhados continuamente pelo levantamento, o progresso foi de 5,2 pontos.

O dado mais revelador, porém, talvez esteja naquilo que acontece quando se observa onde a desigualdade permanece. Quando falamos em participação econômica e oportunidades, o índice cai para 61,7%. No empoderamento político, despenca para 22,1%. Mantido o ritmo histórico, seriam necessários 129 anos para alcançar a paridade econômica e 194 anos para a política.

O Brasil reproduz esse paradoxo de maneira particularmente evidente. O país ocupa a 72ª posição entre 145 economias, com índice geral de 71,5%, e alcançou a paridade educacional. Mas a igualdade começa a se desfazer justamente no caminho que leva da formação à renda, à liderança e aos espaços de decisão.

A paridade na renda estimada é de apenas 62,2%, com o relatório mostrando renda anual de US$ 15,13 mil para mulheres, ante US$ 24,33 mil para homens. No Parlamento, elas ocupam somente 17,15% das cadeiras, e o Brasil aparece na 112ª posição nesse indicador. No empoderamento político, a paridade brasileira é de apenas 21,8%.

Não parece ser, portanto, apenas uma questão de preparar mulheres para chegar lá. É também uma questão de compreender o que acontece quando elas chegam à porta do poder.

Um levantamento do Instituto Update analisou os programas de 12 candidaturas à Presidência do Brasil e identificou propostas dirigidas às mulheres em diferentes campos políticos. A maior concentração está em violência, saúde e cuidado. Participação política, presença feminina nos espaços de poder, segurança no ambiente público e autonomia quase não aparecem.

A conclusão do estudo merece atenção: as mulheres aparecem mais como destinatárias de políticas do que como participantes do poder. Na pesquisa Mulheres em Diálogo, 72% das entrevistadas concordaram plenamente com o aumento da representação feminina em cargos políticos. Apesar disso, dos programas analisados, apenas um apresentou proposta específica para a participação político-eleitoral feminina. Quando o critério é ampliado para liderança e espaços de decisão, um segundo programa passa a contemplar o tema.

Há uma diferença importante entre formular políticas para mulheres e construir políticas com mulheres participando das decisões. Saúde, cuidado e enfrentamento à violência são questões fundamentais. Mas igualdade também significa reconhecer mulheres como formuladoras de respostas para segurança, economia, tecnologia, Justiça e tantos outros assuntos que determinam os rumos de um país.

A inteligência artificial é um novo elemento que torna essa discussão ainda mais complexa. A tecnologia que amplia possibilidades de produção, conhecimento e participação também pode ampliar desigualdades existentes. Deepfakes, imagens manipuladas e conteúdos abusivos podem ser produzidos e disseminados em escala, criando outras formas de violência e intimidação no espaço público, além de desinformação de gênero. O desafio não está apenas em ampliar a presença feminina nos lugares de decisão, mas em garantir condições para que mulheres possam ocupá-los e permanecer neles.

Ao abrir o debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, António Guterres colocou desigualdade e inteligência artificial entre os grandes desafios relacionados à forma como o poder é exercido no mundo. Ao tratar especificamente da desigualdade de gênero, anunciou que, pela primeira vez, a ONU alcançou paridade entre homens e mulheres na alta liderança, nas sedes da organização e em seu quadro profissional.

O resultado, segundo Guterres, veio da remoção de barreiras e do questionamento de pressupostos históricos sobre quem deveria ocupar posições de poder. E ele resumiu a experiência em uma frase que merece ultrapassar as paredes das Nações Unidas: "igualdade não é um sonho; é uma decisão".

Talvez esteja aí a questão central. Depois de décadas discutindo diversidade, já sabemos que representatividade importa. Mas contar quantas mulheres chegaram não basta. É preciso olhar para quem decide, quem lidera, quem recebe as oportunidades, quem participa da construção das soluções e quais barreiras continuam funcionando mesmo quando parecem invisíveis.

Os 120 anos projetados pelo Fórum Econômico Mundial não são uma sentença. São uma projeção baseada na velocidade com que estamos avançando. E velocidade também é uma escolha.

 

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Por Opinião
postado em 05/10/2026 05:00
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