ARTIGO

Elevar as aprendizagens para além dos rankings

Aproximar-se de uma referência que recuou no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) não significa, por si só, avançar em aprendizagem

. -  (crédito: Ed Alves/CB/DA.Press)
. - (crédito: Ed Alves/CB/DA.Press)

Anna Helena Altenfelder — presidente do Conselho de Administração do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária)


Nos últimos dias, os resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) ganharam destaque e, como educadora que atua há mais de 40 anos, vendo a realidade das redes públicas de ensino, acredito que esses avanços devem ser analisados com cautela.
Reduzimos, sim, a distância em relação à média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas essa aproximação não se deveu apenas à melhora brasileira: ela foi influenciada também pela queda do desempenho médio dos países da OCDE, muitos deles europeus. Em outras palavras, aproximar-se de uma referência que recuou não significa, por si só, avançar em aprendizagem.
O propósito do Cenpec é o enfrentamento das desigualdades educacionais e, sendo assim, é fundamental lançar luz sobre essa grave questão nos resultados do Pisa. Os dados apontam que a diferença de desempenho em ciências entre os estudantes mais ricos e os mais pobres aumentou 5 pontos no Brasil, enquanto diminuiu 13 pontos na média da OCDE. Os 25% de estudantes de maior nível socioeconômico tiveram média de 476 pontos, enquanto os 25% mais pobres ficaram em 380. Assim, não há o que comemorar enquanto convivermos com tamanha desigualdade.
Outro ponto que merece atenção é a possibilidade de comparação dos resultados entre diferentes unidades da Federação, uma novidade desta edição do Pisa. Convém destacar que existe uma forte correlação entre os resultados do Pisa e o nível socioeconômico, amplamente demonstrada na literatura nacional e internacional. Como esperado, os estados com maior nível socioeconômico apresentaram, em geral, melhores resultados. Entretanto, posições superiores no ranking não significam, necessariamente, que os estudantes estejam aprendendo.
Por exemplo: entre os estados com melhores resultados, como Paraná, São Paulo e Santa Catarina, as médias não ultrapassam o nível 2 nas três áreas avaliadas — considerado pela OCDE como o patamar básico de proficiência, a partir do qual o estudante começa a aplicar conhecimentos em situações simples e estabelecer relações elementares. Em matemática, o quadro é mais preocupante: o Paraná alcançou, na média, o patamar mínimo do nível 2, enquanto São Paulo e Santa Catarina permanecem abaixo dele. Em outras palavras, esses estados ocupam o topo do ranking brasileiro e seus resultados são até superiores que alguns países europeus, como a Grécia, mas os resultados revelam que os alunos permanecem no nível mais básico determinado pelo Pisa.
Embora o Pisa e o Saeb sejam avaliações distintas — com objetivos, públicos, metodologias e escalas de proficiência diferentes, o que não permite comparar diretamente seus resultados —, ambos oferecem evidências relevantes sobre as desigualdades educacionais. O Saeb, avaliação nacional da aprendizagem, é um dos componentes do Ideb, ao lado dos indicadores de rendimento escolar. Os resultados associados ao Ideb também acendem um alerta para o aumento das desigualdades: a distância entre estudantes de alto e baixo nível socioeconômico cresceu em 26 das 27 capitais e em 21 dos 27 estados. Da mesma forma, aumentou a diferença de desempenho entre estudantes brancos e amarelos e estudantes pretos, pardos e indígenas em 16 capitais e em 21 estados.
Mais do que alimentar comparações ou estabelecer rankings entre estados, os dados podem ajudar a reconhecer que cada território parte de condições distintas e, portanto, demanda respostas também contextualizadas. O desafio é transformar esses dados em políticas que fortaleçam as aprendizagens, com especial atenção aos estudantes que enfrentam maiores desigualdades. Nesse contexto, ganha relevância a recomposição das aprendizagens, como defendido em nota técnica produzida pelo Cenpec, entendida não como uma ação emergencial de recuperação de conteúdos, mas como uma estratégia que articule currículo, avaliação, práticas pedagógicas e tempos de aprendizagem, permitindo retomar conhecimentos não consolidados sem interromper a progressão dos estudantes.
Também será fundamental aprofundar a análise dos microdados do Pisa 2025. Observar como variam os resultados entre grupos de estudantes, territórios e redes permitirá uma leitura mais precisa do que está por trás das médias. Será especialmente importante identificar experiências que consigam combinar melhores resultados de aprendizagem com redução das desigualdades. Esse olhar pode contribuir para identificar práticas e políticas capazes de inspirar a cooperação entre redes e a construção de respostas adequadas às diferentes realidades brasileiras.

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Por Opinião
postado em 05/10/2026 03:00
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