
Daniel Guanaes — PhD em teologia pela Universidade de Aberdeen, pastor presbiteriano, psicólogo clínico e autor do livro “Cuidar de si”
A relação entre espiritualidade e saúde mental, que, nas últimas três décadas, tornou-se um campo relevante de pesquisa, merece atenção. Até porque, por muito tempo, parte da psicologia manteve a espiritualidade fora dos consultórios, como que para proteger o cuidado clínico de imposições religiosas. Isso fazia com que uma dimensão importante da vida de muitos pacientes também deixasse de ser conhecida.
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Em um consultório, nem sempre a primeira pergunta de quem sofre é “o que eu tenho?”. Muitas vezes é “por que continuar?”; ou “será que Deus me abandonou?”; ou ainda “existe sentido para a minha vida?”. São perguntas decisivas no sofrimento de muitas pessoas e pertencem à dimensão espiritual da existência, na qual se articulam questões relacionadas a sentido, propósito, esperança e senso de transcendência.
Nas últimas três décadas, pesquisadores de diferentes áreas da saúde têm se dedicado a investigar os benefícios da espiritualidade — seja ela religiosa ou não — na promoção da saúde. Um deles, o psiquiatra Harold Koenig, professor da Universidade Duke (EUA) e um dos autores do Handbook of religion and health, é um dos pioneiros nos estudos sobre espiritualidade e saúde. No Brasil, quem tem contribuição importante nesse campo é o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, fundador e diretor do Nupes (Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde), e que recebeu, em 2025, o Oskar Pfister Award, principal prêmio internacional nessa área, concedido pela American Psychiatric Association.
Mas, apesar do avanço das pesquisas, ainda se encontra ceticismo, inclusive entre profissionais de saúde. Muitos entendem que integrar a espiritualidade ao cuidado significa admitir alguma forma de proselitismo ou induzir o paciente a seguir determinada religião. E não é isso. Considerar essa dimensão é reconhecer sua presença na experiência humana e compreender de que maneira ela pode afetar, positiva ou negativamente, a saúde de cada pessoa.
A investigação criteriosa da relação entre espiritualidade e saúde mental, no entanto, é necessária. Afinal, se essa é uma dimensão importante da vida de boa parte da população, por que não avaliar os efeitos de práticas espirituais na promoção de bem-estar e no enfrentamento do sofrimento?
O suicídio é um exemplo. Revisões sistemáticas e meta-análises indicam que a religiosidade e a espiritualidade podem estar associadas a menores índices de tentativas e outros comportamentos suicidas. Entre os possíveis mecanismos de proteção, estão o fortalecimento da esperança e do sentido da vida, o sentimento de pertencimento, o apoio da comunidade religiosa e a construção de razões morais e espirituais para continuar vivendo.
Essa relação, contudo, varia conforme a pessoa e o contexto. A filiação religiosa, isoladamente, não garante proteção nem necessariamente impede o surgimento da ideação suicida. Ainda assim, as evidências não podem ser ignoradas, especialmente neste mês dedicado à campanha nacional de prevenção ao suicídio.
Mas é importante ressaltar que a fé não substitui o acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou o uso de medicamentos. A espiritualidade deve ser considerada como uma dimensão complementar do cuidado, e não uma intervenção substitutiva aos tratamentos baseados em evidências. Sua integração à prática clínica exige critérios técnicos, respeito à autonomia do paciente e reconhecimento dos limites de atuação de cada profissional.
Também seria ingênuo supor que toda experiência religiosa produz saúde. Crenças marcadas por culpa, medo, punição divina ou abandono por Deus podem agravar o sofrimento. Atribuir um transtorno mental à falta de fé, ao pecado ou apenas à ação espiritual pode afastar alguém do tratamento necessário.
Reconhecer a espiritualidade no cuidado não é transformar psicoterapia em aconselhamento religioso, nem autorização para catequizar e sugerir ao paciente a religião do psicólogo. É compreender que, se o paciente traz uma história com crenças e razões para viver, pode ser útil no tratamento dele utilizar os recursos de suas próprias convicções.
Um cuidado integral não impõe fé, mas também não a silencia. Perguntar se as crenças ajudam ou fazem sofrer pode revelar recursos e conflitos invisíveis. A espiritualidade não explica nem resolve tudo, mas ignorá-la, para muitas pessoas, é cuidar apenas de parte de quem elas são.
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