
Denilde Holzhacker — cientista política e professora do curso de relações internacionais da ESPM
Desde a redemocratização, o Brasil teve sete eleições presidenciais decididas em segundo turno. Em todas elas, quem liderou o primeiro turno terminou eleito. A eleição de 2026 coloca esse padrão histórico novamente à prova, mas em uma disputa com uma característica particular: a pequena distância entre os dois candidatos.
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Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos; e Lula, 45,16%, uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual. Em 2022, por exemplo, Lula chegou ao segundo turno com uma vantagem de 5,23 pontos sobre Jair Bolsonaro.
A pergunta, portanto, é o que esse resultado nos diz sobre o segundo turno. A transferência, ainda que não uniforme, dos votos dos demais candidatos pode alterar o quadro para qualquer um dos lados. Mas uma das grandes questões será o comparecimento. Estudos sobre eleições decididas por margens estreitas mostram a importância da mobilização e da participação eleitoral. No Brasil, há ainda um precedente interessante: em 2022, o comparecimento foi maior no segundo turno do que no primeiro.
Por isso, um dos desafios da campanha de Lula será estimular a participação eleitoral, manter seus eleitores engajados e garantir que aqueles que já se identificam com o PT ou com o presidente voltem às urnas. Além de conquistar novos votos, será fundamental preservar a mobilização da própria coalizão eleitoral.
Há também um componente psicológico importante: evitar que se consolide entre seus eleitores a percepção de que "não dá mais para reverter". Esse sentimento poderia produzir desmobilização e reduzir a disposição para participar da campanha e, principalmente, para comparecer às urnas.
Flávio Bolsonaro entra no segundo turno em uma situação diferente. Chega embalado pelo crescimento eleitoral em relação ao desempenho de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022 e pelos resultados expressivos da direita nas eleições legislativas e estaduais. Esse ambiente pode ser utilizado pela campanha para reforçar uma percepção de força e continuidade. Ao mesmo tempo, existe um desafio inverso: evitar que a percepção de que "já ganhou" reduza o senso de urgência entre os próprios eleitores. Flávio também precisará manter sua base mobilizada e, ao mesmo tempo, buscar eleitores que votaram em outros candidatos ou não compareceram no primeiro turno.
Outro aspecto importante é que o segundo turno tende a fortalecer a lógica da rejeição e do voto "contra". Parte do eleitorado vota naquele que considera preferível diante da possibilidade de vitória do candidato que mais rejeita.
Nesse ambiente, as duas campanhas tendem a explorar as vulnerabilidades e rejeições do adversário. No caso de Flávio Bolsonaro, o antipetismo deverá continuar sendo um elemento importante de mobilização. No caso de Lula, a campanha tende a enfatizar os riscos que associa ao retorno do bolsonarismo, incluindo possíveis perdas de direitos, mudanças em políticas públicas e questões relacionadas às instituições democráticas.
Por isso, quem espera um segundo turno predominantemente marcado pela confrontação de propostas e projetos de governo poderá se decepcionar. A tendência é de uma campanha de temperatura elevada, com forte confronto político e narrativo, na qual a rejeição ao adversário terá peso relevante.
Mas existe um limite importante para as duas campanhas: elevar a rejeição ao adversário sem produzir uma campanha tão negativa que aumente o desencanto e afaste eleitores das urnas. Em uma eleição separada por menos de dois pontos no primeiro turno, mobilizar o eleitor não é apenas uma questão de convencê-lo sobre em quem votar. É também convencê-lo de que vale a pena comparecer às urnas.
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