
Catharina Vale — doutora em comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, mestra em educação intercultural pela Universidade Livre de Berlim, pesquisa comportamentos on-line e digitais e política
Uma alta taxa de abstenção geral marcou esse primeiro turno, e um olhar mais atento aos números por faixa etária mostra diferentes comportamentos entre jovens. A abstenção de 20% entre jovens de 16 e 17 anos chama atenção num cenário em que mais de 21% do eleitorado não compareceu às urnas — a maior taxa desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como o voto é facultativo nessa faixa etária, o dado oferece um ponto de partida para refletir sobre como os jovens estão vivendo a política hoje. Em 2024, os eleitores de 16 anos tiveram a menor taxa de abstenção, 8,6%. Os recortes são diferentes, mas chama atenção a oscilação, e, para ajudar a compreender por que isso ocorre, é preciso ouvir os jovens.
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Entre 2012 e 2024, observa-se uma tendência agregada de aumento da abstenção nas faixas etárias de 21 a 34 anos, embora com oscilações entre as eleições. Ainda que os dados do TSE, por si só, não permitam identificar as causas desse aumento, pesquisas qualitativas ajudam-nos a compreender como os jovens percebem e vivenciam a política, com foco nos políticos-influenciadores e com a hiperconectividade evidenciando o isolamento.
Nas campanhas políticas nas redes sociais, pela terceira vez confirmaram-se tendências verificadas em outros pleitos e que produzem efeitos na sociedade. Ganha destaque o aprofundamento das bolhas, e as estratégias de polarização política, social e afetiva permanecem calcificadas, um processo cuja gênese está em 2013, reduzindo a possibilidade de debate e ampliando a sensação de exaustão. Parte dessa dinâmica está na espetacularização e na personalização da política, que tende apenas a alimentar vieses, por meio dos chamados cortes virais, em detrimento ao debate de propostas.
Assim, a geração de jovens em 2026, nativos digitais, tem como marca a conexão individualizada, microssegmentada e personalizada oferecida pelas dinâmicas das redes sociais. A nova geração política deixa claro seu total comprometimento com esse novo e atual cenário — os eleitores e os políticos que aprenderam como a estratégia funciona. A exaustão consolida-se como marca dessas gerações, assim como a tendência das relações intermediadas pelas plataformas e algoritmos.
Pelas redes sociais, a entrega de visões fragmentadas — recortes da vida — permitem o consumo de pautas, ideais e estilos de vida que não dialogam com a visão do mundo de quem, às vezes, pode estar sentado ao lado.
É fato que a eleição presidencial terá o segundo turno, porém os resultados no Legislativo até o momento servem de pistas para o futuro. Ao cruzarmos os dados da juventude com os deputados federais mais votados, compreendemos que a expressão dos votos e das redes são potências difíceis de desconsiderar.
Entre os 10 deputados e deputadas mais votadas, sete têm menos de 34 anos, são todos jovens, nascidos após o fim da ditadura no Brasil. A mais nova tem 21 anos, Ana Elisa (PT), e a mais velha, com 41, é Julia Zanatta (PL). Essa composição reflete a polarização marcante e, em comum, uma forte presença on-line, alguns com perfis com mais "seguidores" que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre os 10 deputados federais mais votados do país, dois foram do Movimento Brasil Livre (MBL), criado em 2014 e que teve forte atuação no impeachment de Dilma Rousseff (PT) por meio de mobilização digital. Os números dos deputados federais mais votados em São Paulo igualmente alinham-se com a polarização e a tendência de influenciadores e políticos: Lucas Pavanato (PL), 28, foi o deputado mais votado de São Paulo e tem 5,4 milhões de seguidores no Instagram; e Erika Hilton (PSol), 33, a deputada mais votada no estado, tem 5,2 milhões.
Essa radiografia do primeiro turno mostra como a nova política está habituada às redes e plataformas sociais e suas bolhas segmentadas. Em três semanas, não haverá tempo para a construção de pontes entre os polos, será necessário adentrar neles por meio dos influenciadores-políticos. Há ainda um equilíbrio entre as forças polarizadas entre os 10 mais votados, há partidos tradicionalmente da esquerda e da extrema-direita e mais ao centro, porém é necessário acompanhar de perto o comportamento dos influenciadores-políticos e como o eleitorado seguirá se engajando para compreender o que virá a partir dessa nova forma de fazer política.
Opinião
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