
O Brasil terminou o primeiro turno no domingo e já se prepara para o segundo. Mas, antes de virar a página, é preciso olhar para algo que aconteceu durante a votação — não nas filas, não nas seções eleitorais, mas nas telas. O ambiente digital não é mais um reflexo do debate político. É parte dele. Redes sociais são hoje onde a maioria dos eleitores forma opinião, recebe informação e decide em quem votar. Essa fusão entre o espaço virtual e o espaço real tem consequências diretas para a integridade do processo democrático, e o que o Observatório das Big Techs, do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), documentou no dia 4 de outubro é um alerta que não pode ser ignorado antes do segundo turno.
O levantamento documentou centenas de anúncios políticos irregulares veiculados nas principais plataformas no próprio dia da eleição, período em que a propaganda eleitoral paga é expressamente proibida pelo TSE. Outros anúncios haviam circulado durante o período de silêncio eleitoral, nos dias anteriores à votação. Sistemas de recomendação de vídeo continuaram sugerindo conteúdos de candidatos quando deveriam estar desativados para esse fim. O caso mais grave foi o de anúncios que simulavam comunicações oficiais da Justiça Eleitoral, induzindo eleitores a acreditar que poderiam votar remotamente pelo celular, e solicitando CPF para isso, em clara desinformação ativa no dia do voto.
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As respostas das empresas seguiram o script habitual: compromisso declarado com a integridade eleitoral, equipes dedicadas ao monitoramento, volume expressivo de conteúdos removidos ao longo do período. Nenhuma delas reconheceu a falha. Todas descreveram o problema como resíduo inevitável de sistemas que, no geral, funcionam. Mas o que o estudo documenta é exatamente o contrário: plataformas que falharam em cumprir obrigações legais no momento mais sensível do calendário democrático.
Parte do problema é estrutural. O estudo da UFRJ aponta divergências entre os dados exibidos nas interfaces públicas das plataformas e os dados acessados por programação, com anúncios classificados como inativos que apareciam simultaneamente em listas de ativos. Essa falta de transparência dificulta a fiscalização externa e, consequentemente, a responsabilização. Quando nem o pesquisador consegue saber com certeza o que está circulando, o regulador tampouco consegue.
O segundo turno será em menos de quatro semanas. O TSE tem instrumentos legais para exigir cumprimento das regras, e deve usá-los com mais vigor do que usou no primeiro turno. Mas a fiscalização pública, por mais eficiente que seja, não substitui a necessidade de que as próprias empresas adotem políticas internas mais rígidas, mais transparentes e publicamente auditáveis. Não basta remover conteúdo após denúncia. É preciso impedir que circule. Não basta declarar compromisso com a democracia. É preciso demonstrá-lo com dados verificáveis, em tempo real, por qualquer pesquisador ou órgão regulador que queira checar.
Democracia não sobrevive apenas de urnas e mesários. Sobrevive também do ambiente em que o debate acontece. Quando esse ambiente é controlado por algoritmos opacos e por empresas que tratam irregularidades eleitorais como problema de relações públicas, o risco não é apenas de uma eleição contaminada. É de uma democracia progressivamente esvaziada por dentro.
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