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Quando o Tesouro e Wall Street dizem a mesma coisa

Em ambos os casos, a mensagem é semelhante: o capital continua disponível para o Brasil, mas exige proteção, liquidez e remuneração mais elevada

. -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
. - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Ricardo Rocha —  economista e professor de Finanças do Insper

Dois relatórios divulgados praticamente ao mesmo tempo ajudam a compreender como o risco brasileiro está sendo percebido, tanto dentro quanto fora do país. 

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O primeiro veio do próprio Tesouro Nacional. Em julho, a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,29 trilhões. O número impressiona, mas talvez o sinal mais importante esteja em sua composição: 51,1% da dívida já está vinculada a taxas flutuantes, principalmente à Selic, a maior participação desde 2003.

O Tesouro também revisou o Plano Anual de Financiamento e passou a admitir que essa parcela poderá chegar a 53% até o final de 2026. Somente em julho, 62,6% das emissões foram realizadas em títulos pós-fixados.

Isso não significa que o Brasil esteja diante de uma crise de financiamento. O prazo médio da dívida aumentou de 4,01 para 4,05 anos, enquanto a parcela com vencimento nos próximos 12 meses caiu de 20,07% para 18,91%. O país mantém liquidez, instrumentos e capacidade de rolagem.

O problema é mais sutil. O Tesouro está precisando oferecer ao investidor proteção crescente contra a incerteza. Quando aumenta a participação dos títulos vinculados à Selic, o mercado aceita financiar o governo, mas demonstra menor disposição para assumir, por longos períodos, o risco de uma taxa prefixada.

O segundo sinal veio do Morgan Stanley. O banco rebaixou sua recomendação para as ações brasileiras de overweight para equal-weight, reduzindo sua exposição ao país diante da desaceleração econômica e das incertezas fiscais e eleitorais. Também retirou o Banco do Brasil de sua carteira e diminuiu posições em XP e B3, mantendo uma exposição mais seletiva a energia, agronegócio e empresas com receitas em moeda estrangeira.

O Morgan Stanley não afirma que o pior cenário necessariamente ocorrerá nem faz uma previsão sobre o vencedor das eleições. Sua decisão é mais pragmática: diante da piora da relação entre risco e retorno, o banco prefere aguardar maior clareza.

O Tesouro observa essa cautela no mercado de renda fixa. O Morgan Stanley a identifica na renda variável. Em ambos os casos, a mensagem é semelhante: o capital continua disponível para o Brasil, mas exige proteção, liquidez e remuneração mais elevada.

A consequência aparece diretamente nas contas públicas. Quanto maior a parcela da dívida vinculada à Selic, mais rapidamente os juros elevados são transferidos para o custo do endividamento. E quanto maior a percepção de risco fiscal, mais difícil se torna reduzir os juros de maneira sustentável. Forma-se, assim, um círculo desconfortável: a incerteza fiscal mantém os juros elevados, enquanto os juros elevados tornam o ajuste fiscal ainda mais difícil.

O mercado não vota, mas precifica. Não escolhe presidentes, mas escolhe preços, prazos e a quantidade de risco que está disposto a carregar.

Talvez essa seja a principal advertência deixada pelos dois relatórios: o Brasil ainda consegue financiar sua dívida e atrair investidores, mas confiança não se impõe por decreto. Ela se conquista com previsibilidade, responsabilidade fiscal e capacidade de transformar promessas em resultados.

Como afirmou Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, “nosso sistema funciona, fundamentalmente, com base na confiança”.

Na economia, a confiança pode parecer abstrata. Até o dia em que desaparece — e passa a ser cobrada na forma de juros mais altos, prazos menores e investimentos adiados.

 

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Por Opinião
postado em 08/10/2026 17:47
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