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IA e eleições: até onde um algoritmo pode influenciar o eleitor?

Consultar a tecnologia para entender cenários é válido; contudo, delegar a interpretação política a um código de programação é abrir mão da própria cidadania

. -  (crédito: kleber sales)
. - (crédito: kleber sales)

Lucas Fernandes — formado em administração pela UFRJ, com formações também pelo MIT (Estados Unidos) e Iese (Espanha)

Nas eleições de 2026, a forma como consumimos informação política mudou drasticamente. Cada vez mais eleitores, especialmente os indecisos ou aqueles que buscam um resumo rápido, deixaram de consultar apenas portais de notícias tradicionais ou debates na TV para recorrer a assistentes baseados em inteligência artificial. Perguntas como "Qual candidato tem a melhor proposta para a economia?" ou "Resuma os pontos fortes dos presidenciáveis" tornaram-se comuns nas caixas de texto de chatbots globais.

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O problema é que um teste recente revelou uma falha grave e sistêmica: ferramentas como Claude, DeepSeek, Gemini e ChatGPT descumpriram flagrantemente as diretrizes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atribuindo notas, avaliando planos de governo e ranqueando candidatos à Presidência da República.

Para quem acompanha tecnologia e desenvolvimento de softwares, a questão toca na essência de como os algoritmos funcionam e em como o cidadão contemporâneo corre o risco de delegar seu senso crítico a um oráculo digital que finge ser neutro.

Para entender por que as IAs falharam, precisamos olhar para debaixo do capô dessas tecnologias. Os chamados Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) são treinados para prever a próxima palavra mais provável com base em volumes massivos de dados da internet. Eles foram desenhados para serem prestativos e úteis, respondendo a quase qualquer comando (prompt) que o usuário digite.

Quando um sistema é forçado a responder sobre um tema subjetivo e polarizado, como preferências políticas, ele tenta preencher a lacuna lógica gerando uma resposta coesa, polida e estruturada. O obstáculo é que as empresas de tecnologia inserem barreiras de segurança (guardrails) para tentar impedir que suas ferramentas tomem partido em eleições.

No entanto, testes realizados mostraram que essas travas apresentaram brechas significativas. Seja por comandos elaborados ou pela própria natureza probabilística do modelo, plataformas populares acabaram cruzando a linha vermelha traçada pelo TSE, emitindo juízos de valor, pontuações e listas de prioridade sobre candidaturas.

O grande perigo não está no fato de a IA errar, softwares cometem erros o tempo todo, mas na autoridade psicológica que ela exerce sobre o usuário. Quando um ser humano lê uma opinião na internet, ele normalmente sabe se o jornal é de linha editorial X ou se o influenciador tem viés Y. Mas, quando a inteligência artificial responde com uma formatação impecável, tópicos organizados e um tom analítico, cria-se uma perigosa ilusão de objetividade. O eleitor tende a acreditar inconscientemente que aquela resposta é um veredito matemático, imparcial e neutro.

Se um algoritmo, operando com base em critérios opacos e subjetivos extraídos de sua base de treinamento, pontua melhor a proposta de um candidato em detrimento de outro, ele está, na prática, influenciando sutilmente a jornada de decisão do eleitor sem que o cidadão perceba que foi moldado por um viés algorítmico. 

A decisão do TSE em proibir que sistemas de inteligência artificial ranqueiem, recomendem ou priorizem candidaturas foi uma medida preventiva necessária para proteger a integridade do pleito. Contudo, testes recentes escancaram um abismo tecnológico: as leis brasileiras são locais e rígidas, enquanto as big techs operam com modelos globais, cujos ajustes finos para restrições regionais ainda são frágeis e fáceis de burlar.

Até que ponto as empresas desenvolvedoras serão responsabilizadas quando seus algoritmos agirem como cabos eleitorais disfarçados de consultores neutros? E mais. Como garantir que a conveniência da tecnologia não se transforme em uma ferramenta de erosão do livre-arbítrio político?

A inteligência artificial é uma das ferramentas mais revolucionárias já criadas pela humanidade, com potencial para otimizar a educação, a medicina e a produtividade. Porém, na política, ela não pode ser autoridade moral nem árbitra da democracia.

Consultar a tecnologia para entender cenários é válido; contudo, delegar a interpretação política a um código de programação é abrir mão da própria cidadania. Em 2026, o voto continua sendo o ato mais humano e insubstituível que temos, e nenhum algoritmo pode decidir por nós.

 

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Por Opinião
postado em 08/10/2026 05:00
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