
Amanda Vitoria Lopes — doutora em ciência política (UnB) e pesquisadora assistente do Núcleo de Estudos sobre Bicameralismo e Instituições Comparadas (Nebic/Ipol/UnB)
A federação PSol/Rede elegeu seis deputados federais por São Paulo em 2026. Pelo quociente partidário (QP), poderia ter elegido nove. Erika Hilton com seus 1.596.472 votos, teria a capacidade de garantir a eleição de três candidaturas da federação. Mas só seis candidatos da chapa passaram do mínimo exigido para ocupar uma vaga. O sétimo, Raul Marcelo, ficou 3.702 votos abaixo do piso. Três cadeiras que a federação tinha votos para ocupar foram para outros partidos.
Desde 2020, a eleição proporcional não permite coligações. Cada partido ou federação deve ter a própria chapa. O quociente eleitoral (QE) é o total de votos válidos dividido pelo número de vagas: as da bancada do estado na Câmara dos Deputados, ou as da Assembleia Legislativa (no Distrito Federal, Câmara Legislativa). Em São Paulo, para a Câmara dos Deputados, o QE foi de 338.203 votos.
Depois que os votos são totalizados, cada chapa recebe um número de cadeiras proporcional à sua votação total, somando os votos dados aos candidatos (votos nominais) e ao partido (votos de legenda). Em São Paulo, toda vez que a chapa atinge 100% de um QE — 338.203 votos —, ela ganha um quociente partidário (QP) — ou seja, direito a uma cadeira. Contudo, para ocupar essa vaga, o candidato precisa ter tido, individualmente, no mínimo 10% do QE, que em São Paulo equivale a 33.820 votos.
Se sobram vagas, elas são disputadas em uma nova fase: as sobras. Nela, a chapa precisa ter atingido pelo menos 80% do QE, somando votos nominais e de legenda. E o piso individual dobra: o candidato precisa de 20% do QE, em São Paulo 67.641 votos. Quem não chega a esse piso não ocupa a cadeira, e ela passa para outro partido. O resultado é que um partido ou federação pode ter votos para uma cadeira e não ter quem a ocupe.
Em 2026, 19 chapas na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativas perderam ao menos uma cadeira por falta de candidato com a votação mínima. Em 2022, foram 52. Os números caíram, mas o perfil de quem é barrado também mudou.
Em 2022, mais da metade das chapas barradas não tinha nenhum nome forte: nem o mais votado chegava a 50% do quociente. Em 2026, a proporção se inverteu. Quase dois terços das barradas tinham um candidato que, sozinho, passava de 100% do quociente.
O caso extremo é o de Nikolas Ferreira, em Minas Gerais. Ele recebeu 3,1 milhões de votos, mais de 14 vezes o quociente eleitoral. O PL elegeu 21 deputados federais e, pelos votos, teria direito a 24. O voto no puxador eleva o quociente da chapa e cria direito a mais cadeiras. Esse direito só se realiza se a chapa tiver candidatos para ocupá-lo.
A queda de 52 para 19 chapas barradas pode ser explicada em parte pela diminuição de chapas na disputa, devido a fusões e formação de federações. Mas a proporção de chapas barradas também caiu a menos da metade, e as chapas passaram a ter, em média, mais candidatos acima do piso das sobras.
Para separar o efeito das fusões, é preciso olhar o mesmo partido na mesma casa. Das chapas barradas em 2022 que voltaram a disputar as sobras em 2026, quase nove em cada 10 não perderam cadeiras para outros partidos. Na maioria delas, havia mais candidatos acima do piso do que quatro anos antes.
Enquanto em 2022, o PT perdeu a cadeira em cinco disputas, em 2026 não perdeu em nenhuma. Não foi o único. Podemos, Novo, PSB e PDT, que tinham perdido cadeiras em 2022, porque seus candidatos não tinham atingido 20% do QE, não passaram pelo mesmo problema na eleição deste ano. O PL, apesar de ter diminuído o número de cadeiras perdidas, tendo sido 11 em 2022, perdeu cinco cadeiras em 2026. Os números são compatíveis com uma mudança de comportamento. Em 2022, a barreira pegava sobretudo chapas sem nome forte. Em 2026, pega chapas com um nome muito forte e pouca gente atrás.
Na montagem da chapa, os partidos estimam a votação do primeiro nome e a converte em quocientes. Cada quociente pede um candidato com pelo menos 10% do QE; cada cadeira das sobras, um com 20%. Se o puxador trouxer mais cadeiras do que a chapa tem nomes competitivos, a diferença vai para outro partido, porque o puxador sozinho, não enche bancada.
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