
Creomar De Souza — fundador da Dharma Political Risk and Strategy, professor da Fundação Dom Cabral e autor do livro Gestão de risco Político: como blindar negócios e carreiras
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Três deputados federais somaram mais de 7,7 milhões de votos em 4 de outubro. Nikolas Ferreira (PL-MG) passou de 3,1 milhões, mais que o dobro de 2022. Lucas Pavanato (PL-SP) obteve 3.038.438, a maior votação da história de São Paulo para a Câmara. Erika Hilton (PSol-SP) chegou a 1.596.472 e tornou-se a mulher mais votada da história da Casa.
Os polos são antagônicos; os métodos de captura de atenção são idênticos. Essas candidaturas falam daquilo que o eleitor é e dos inimigos, reais ou imaginários, que ele teria. A filiação identitária, seja religiosa, seja de gênero, seja geracional ou seja de trincheira, cria um dilema para o crescimento do país. Afinal, se a tomada de decisão fica presa a dinâmicas sectárias, não há interesse em pensar o país para além das bolhas de ressonância.
Por exemplo, Pavanato travou com Erika Hilton embates que chegaram à Justiça Eleitoral. Encerrada a apuração, o modo campanha continua, porque capturar atenção rende mais do que avançar qualquer agenda. O resultado é a transformação da cidadania em audiência, e do político, em performer.
O cientista político Yascha Mounk descreve esse circuito em A armadilha da identidade. Seu alvo é a vertente da esquerda que passou a tratar raça, gênero e orientação sexual como a lente principal da vida pública. A armadilha está no efeito: ao abandonar a aposta em valores universais, essa agenda legitima que outros grupos se organizem pela mesma lógica, e a direita responde com a própria política de pertencimento. As urnas de 2026 indicam que o espelho opera nos dois sentidos.
A identidade não é tema ilegítimo. Grupos excluídos têm razões para buscar voz no parlamento, e eleitores religiosos têm direito de ver seus valores representados. O problema surge quando a identidade deixa de ser ponto de partida e passa a ser ponto de chegada.
O mecanismo eleitoral favorece esse deslocamento. Eduarda Campopiano, um dos casos mais exemplares dessa lógica, avançou com uma campanha apoiada na comunicação digital, com um conteúdo que demarca a fronteira entre nós e eles. E essa dinâmica, por si, atrai mais atenções que uma proposta sobre o financiamento do SUS ou a concessão de rodovias.
Outro caso é o episódio da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, que, em março de 2026, antecipou esse padrão. A eleição de Erika Hilton para presidi-la exigiu dois turnos e terminou com 11 votos favoráveis e 10 em branco, e a oposição concentrou a disputa na identidade de gênero da deputada, não nas prioridades do colegiado.
É aqui que Ha-Joon Chang ajuda a medir o custo desse modo de fazer política. Em Chutando a escada, ele mostra que os países hoje ricos se desenvolveram com escolhas deliberadas de Estado, como a proteção à indústria nascente. Desenvolvimento, nessa leitura, é decisão política sustentada por décadas. Uma legislatura organizada em torno de identidades, de qualquer viés, tende a gastar seu capital em disputas simbólicas e a deixar sem dono justamente essas escolhas.
É preciso, contudo, conter o diagnóstico. Pavanato e Campopiano ainda não exerceram mandato nas casas para as quais foram eleitos, e Erika Hilton teve protagonismo no debate sobre a escala 6x1. O que existe, por ora, é risco, não fato. O dilema está nos incentivos, e eles apontam numa direção: um parlamentar cujo capital depende de engajamento diário pouco ganha com uma discussão sobre saneamento ou portos. Saúde, aprendizagem, produtividade e infraestrutura exigem negociação, concessão e tempo, recursos que a política de identidade, à direita e à esquerda, tem pouco interesse em oferecer.
Não é provável que o Congresso deixe de votar matérias econômicas. O cenário mais plausível é que elas passem a depender ainda mais dos partidos de centro, que negociam longe das câmeras e cobram mais caro por cada apoio. Desenha-se uma divisão de trabalho: quem tem voto não decide, e quem decide não tem voto. Nesse intervalo, instala-se uma entropia decisória que o próximo governo, seja qual for, terá de administrar.
O eleitor que deu essas votações não o fez por engano nem por falta de informação. Respondeu a uma oferta que fala de quem ele é, e não do que o país precisa. Enquanto a oferta for essa, a pergunta sobre como o Brasil cresce, educa e cuida de sua população seguirá sem quem a formule no plenário.
Saiba Mais
Opinião
Opinião
Opinião