
A laicidade é característica importante de qualquer democracia. Não se trata somente de separar Estado e religião. Mas, também, de aceitar a convivência harmônica de todos os credos, sem que estejam atrelados à política. Um dos principais traços de qualquer nação democrática é a capacidade de acolher a diversidade. Isso inclui os fiéis e os ateus, os heterossexuais e a comunidade LGBTQIAPN , os brancos e os pretos e os pardos, os intelectuais e os analfabetos, os seguidores da direita e os da esquerda.
A pluralidade religiosa não é cheque em branco para que o nome de Deus seja usado em discursos de campanha ou de governo. A relação instrumentalizada entre a fé — algo tão íntimo e pessoal — e a política é combustível para fomentar o surgimento de uma autocracia na qual se controla a sociedade por meio do medo do sobrenatural. Pecou? Vai para o inferno ou não conseguirá a salvação no chamado Juízo Final. A retórica religião-política impacta principalmente os mais vulneráveis, aquelas "almas perdidas e desesperadas", que buscam respostas para suas angústias.
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Ainda que uma liderança acredite em Deus ou em Jesus Cristo, não deve tomar essa crença como lema de governo nem como promessa de campanha. Não deve oficializar uma crença pessoal. Muito menos tomar decisões políticas calcadas na própria fé. Preocupa-me o rumo que o Brasil vem tomando quando a laicidade deixa de ser respeitada. Essa quebra é caminho para uma quase oficialização da intolerância religiosa. Se eu, enquanto líder, instituo ou declaro o Brasil como o país de Jesus, acabo por jogar no limbo ateus, os agnósticos e os seguidores de religiões de matrizes africana, oriental e ayahuaqueiras brasileiras — o Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha.
Quando penso em um Estado teocrático, me vêm à cabeça dois países: Irã e Afeganistão. A antiga Pérsia tornou-se um país islâmico depois da Revolução Iraniana de 1979, que depôs o xá Reza Pahlavi e colocou no poder o aiatolá Ruhollah Khomeini. O regime instituiu um código de vestimentas para as mulheres baseado no hijab (véu islâmico) e de conduta moral, fiscalizada pela chamada Polícia da Moralidade. O Afeganistão amarga o retorno da milícia fundamentalista islâmica Talibã ao poder, depois de um hiato de 20 anos. Os talibãs impuseram um regime segregacionista misógino, ao proibirem 2,4 milhões de garotas das escolas de ensino secundário e ao banirem as mulheres de parques, academias e salões de beleza. Tudo sob a premissa de seguirem uma versão mais estrita da interpretação da sharia (lei islâmica). Entrevistei lideranças talibãs, e elas sempre tergiversaram quando eu perguntava sobre o tratamento dado às mulheres.
Não estou aqui comparando o Brasil com o Irã e com o Afeganistão, nem sugerindo que tenhamos a instrumentalização política da religião. O Brasil sempre foi um país marcado pela pluralidade de ideias, de credos e de convicções políticas. Deve continuar assim, independentemente do resultado das urnas daqui a 11 dias. É preciso ser vigilante para que a democracia não seja ferida de morte em nome da fé. Impor pela goela abaixo dogmas religiosos é meio caminho para a autocracia e a tirania. Um lembrete: o Estado é laico!
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