Visão do Correio

Espetáculo da morte e o limiteda barbárie

Quando um Estado democrático começa a cogitar, mesmo que recue depois, transformar a morte de um condenado em evento midiático, algo se perde que vai além daquele caso específico

Governo Trump cogitou transmitir o fuzilamento de Nidal Hasan ao vivo  -  (crédito: Reprodução/U.S. Department of War)
Governo Trump cogitou transmitir o fuzilamento de Nidal Hasan ao vivo - (crédito: Reprodução/U.S. Department of War)

Há uma diferença entre executar um criminoso e exibi-lo sendo executado. A primeira é uma decisão do Estado sobre a vida de um condenado. É discutível e controversa, mas pertencente ao campo do direito penal. A segunda é um espetáculo. E espetáculos da morte têm um nome na história da humanidade, e esse nome não costuma aparecer em capítulos que nos orgulhamos.

O governo Trump anunciou, pelo secretário de Defesa Pete Hegseth, que a execução de Nidal Hasan — ex-psiquiatra do Exército americano condenado pelo assassinato de 13 militares numa base no Texas em 2009 — seria transmitida ao vivo. A ideia, claro, sofreu resistência de republicanos, democratas e líderes religiosos, e Trump anunciou nesta quinta-feira que a execução, mantida para 3 de dezembro por pelotão de fuzilamento, não será televisionada. A ressalva é necessária: o recuo não apaga o fato de que a proposta existiu, foi defendida por membros do governo e só foi abandonada diante de pressão política. 

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Não se discute se Hasan merece a pena que recebeu. Esse debate tem os próprios termos, a própria complexidade moral e jurídica. O que está em questão aqui é outra coisa: a decisão de transformar a morte de um ser humano, por mais hediondo que seja o crime que cometeu, em conteúdo para consumo público. A transmissão ao vivo de uma execução não serve à Justiça. É entretenimento do pior tipo — o construído sobre a morte de alguém — e diz algo sobre quem o produz e sobre quem o assiste.

A Organização das Nações Unidas (ONU) classificou o plano original como "uma forma de tortura". A Anistia Internacional lembrou que execuções filmadas ou transmitidas ao público são associadas a regimes autoritários, ao Estado Islâmico e a ataques terroristas gravados pelos próprios autores. Os Estados Unidos, ao propor esse modelo, colocaram-se numa companhia que, presumivelmente, prefeririam evitar. O argumento da dissuasão, usado pelo próprio Donald Trump para justificar a ideia, não tem nenhum tipo de respaldo empírico: simplesmente não há evidência consistente de que execuções públicas reduzam a criminalidade. O que há é a satisfação de uma pulsão de morte e de um impulso punitivo apresentado como política de Estado.

Civilização não é ausência de punição. É a forma como punimos. Quando um Estado democrático começa a cogitar, mesmo que recue depois, transformar a morte de um condenado em evento midiático, algo se perde que vai além daquele caso específico. Perde-se um pouco da ideia de que a dignidade humana — inclusive a de quem cometeu crimes graves — tem um valor que o Estado não pode simplesmente leiloar para satisfazer o ânimo do momento. Quando a barbárie começa a ser discutida como opção, é a prova que a humanidade já perdeu o jogo.

 

 

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Por Opinião
postado em 16/10/2026 05:00
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