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A dúvida do eleitor: a aposta no escuro ou o afeto que se encerra

Na prática, e à luz da razão, é Lula contra o resto, uma vez que suas alianças espalhadas pelo Brasil ainda brilham como lamparinas

Na imagem Flávio Bolsonaro e Lula durante debate da Band na noite do domingo (18/10) -  (crédito:  NELSON ALMEIDA / AFP)
Na imagem Flávio Bolsonaro e Lula durante debate da Band na noite do domingo (18/10) - (crédito: NELSON ALMEIDA / AFP)

Por: José Natal — Quando, no próximo dia 27, Luiz Inácio Lula da Silva completar seus 81 anos de idade, já estará sabendo se terá mais quatro anos como presidente da República ou amargurando a sua quarta derrota como candidato ao cargo. A votação para o segundo turno da eleição terá acontecido 48 horas antes. A primeira vitória foi em 2002, quando derrotou José Serra (PSDB), e a segunda, em 2006, quando venceu de Geraldo Alckmin, do mesmo partido — todas elas no segundo turno, após vitória no primeiro.

No apogeu da carreira vitoriosa, como um dos maiores líderes políticos das Américas, visitante oficial a mais de 50 países do mundo e voz influente em todos eles, o líder petista assume agora estar diante de sua mais difícil missão, embora confiante.

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Com 47% dos votos válidos, Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno, trazendo com ele apoios já garantidos para a próxima votação, uma vez que governadores estaduais, senadores e deputados atrelados à campanha também foram eleitos. O petista, mesmo sendo o mais habilidoso e competente articulador político das Américas, não traz na bagagem de seu partido um nome sequer que possa representá-lo com a altivez, a imponência e o peso que disputas desse porte exigem. Na prática, e à luz da razão, é Lula contra o resto, uma vez que suas alianças espalhadas pelo Brasil ainda brilham como lamparinas numa guerra em que a luz que se exige vai além de holofotes e milhões de luminárias.

AIçado pelo pai, Jair Bolsonaro, a uma candidatura desacreditada pelo próprio partido (PL), pela madrasta (Michelle Bolsonaro), por irmãos, seguidores e aliados mais próximos, Flávio surpreendeu; aos poucos, ganhou espaço onde antes tropeçava; e, agora, esbanja soberba com o grito de "já ganhou" na boca de uma multidão cativa, açodada e voluntariosa, que, na rede social, não admite nada que não seja massacrante votação rumo ao Planalto.

Na pauta diária das duas campanhas, quase a mesma pregação, com vocabulários diferentes. Lula prega o que sempre fez (e bem), que é a defesa insistente das comunidades carentes, mais empregos aos pobres e ações voltadas ao social, sem restrições. Cita com frequência seus projetos voltados às famílias que moram nas periferias, ambientes conhecidos e pouco assistidos.

Os dois candidatos, com virulência verbal, colocam também nos debates escândalos do caso Master-BRB-Vorcaro, fraudes do INSS, ligações submissas e vexatórias com o governo Trump e a influência maléfica e perigosa de ministros togados e outros de patentes parecidas no processo eleitoral, sem razão de ser. Desta vez, até Nossa Senhora Aparecida foi citada.

Pesquisas recentes sinalizam o desejo do eleitor para que haja uma mudança de conceito administrativo do país, pelo cansaço do chamado "tudo isso que está aí". A palavra de ordem, pregam os que já se acham vencedores, é mudança. Mudança de tudo. Forma de administrar o país, educação, segurança pública, controle do tráfico, uma metamorfose completa também no setor cultural.

Nunca o ambiente político do nosso país viu tanta violência verbal e xingamentos pela rede social como nos dias de hoje, tudo em nome da mudança. Cidadãos que de política sabem tanto quanto de guerra nuclear se arvoram em mensagens, recomendações estratégicas e, sempre escorados nos mais estapafúrdios palavrões, se esmeram em indicar os melhores caminhos para a busca de votos, exagerando nos adjetivos que nos recomendam tirar as crianças da sala, caso o áudio possa vazar.

O lado bolsonarista, no momento em êxtase pelos resultados iniciais, tem a sensação de vitória estampada no brilho dos olhos. Adeptos a dialogar com cartucheiras na cintura, como recomenda Jair, apoiadores do capitão têm lá seus motivos para euforia. Há quem diga que uma possível vitória será celebrada quase como uma vingança, uma vez que reina nas hostes do partido uma angústia encravada ali logo após o último pleito até os dias de hoje. Isso não é bom.

Do lado petista, a expectativa de virada é real, consistente, segundo a campanha, fundamentada em dados confirmados. Analistas que, a cada dia, buscam nos bastidores argumentos para suas considerações acreditam numa prova de resultado imprevisível devido à intensidade com que as duas campanhas atuam.

Habituados a comemorar vitórias e a aceitar derrotas na mesma proporção em todo o país, seguidores do Partido dos Trabalhadores deletam qualquer insinuação de que haja desânimo e falta de motivação, mantendo a sensação de vitória como única opção. O afeto pela causa não se encerra, está mais do que vivo.

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Por Opinião
postado em 19/10/2026 06:00
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