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O clima já não cabe na agenda do clima

Se durante muito tempo aprendemos a medir o problema em toneladas de carbono, agora é urgente ampliar a pergunta: que natureza teremos para enfrentar um planeta mais quente?

Mata Atlântica -  (crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Mata Atlântica - (crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por: Afra Balazina, diretora de Mobilização da Fundação SOS Mata Atlântica — Falar de clima já não é suficiente. A crise que enfrentamos é da biodiversidade, da água, das florestas e da capacidade dos ecossistemas de sustentar a vida, as cidades e a economia. Se, durante muito tempo, aprendemos a medir o problema em toneladas de carbono, agora é urgente ampliar a pergunta: que natureza teremos para enfrentar um planeta mais quente?

Essa mudança já está redesenhando a agenda ambiental. O desmatamento zero continua urgente e a restauração de ecossistemas ganha outro peso. Soluções baseadas na natureza passaram ao centro das estratégias para reduzir emissões, proteger a biodiversidade, recuperar a água e preparar territórios para eventos extremos. O desafio, então, deixa de ser apenas mobilizar recursos: é preciso fazer com que cheguem a soluções reais. Ainda existe uma distância enorme entre o volume de compromissos financeiros anunciados para clima e natureza e aquilo que efetivamente se transforma em floresta recuperada, rios mais saudáveis, espécies protegidas, comunidades fortalecidas e cidades mais preparadas.

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É justamente nessa passagem entre intenção e resultado que organizações da sociedade civil têm um papel preponderante. Elas acumulam conhecimento sobre os territórios, conectam ciência, políticas públicas, comunidades e empresas e ajudam a identificar onde um investimento ambiental pode gerar impacto e mudança concreta. A ciência permite dimensionar problemas, estabelecer prioridades e medir resultados, mas o conhecimento precisa chegar à implementação. Parte do trabalho dessas organizações é justamente fazer essa ponte entre evidência e ação. 

O Brasil ocupa uma posição singular nessa agenda. Poucos países combinam biodiversidade em grande escala, produção científica relevante, uma sociedade civil ambiental experiente e capacidade de desenvolver soluções em contextos muito distintos. E há um bioma especialmente importante para mostrar como essa combinação pode funcionar: a Mata Atlântica. É nela que vive a maior parte da população brasileira e onde se concentra grande parcela da atividade econômica do país, além de ter sido profundamente transformada por séculos de ocupação — com florestas fragmentadas, rios pressionados, grandes áreas urbanizadas e uma convivência permanente entre natureza, infraestrutura, produção e milhões de pessoas.

Justamente por isso, a Mata Atlântica pode se tornar um grande laboratório de soluções ambientais. O desmatamento zero é ponto de partida. O passo seguinte é mostrar que é possível restaurar paisagens em grande escala, recuperar rios e mananciais, ampliar infraestrutura verde nas cidades, reconectar fragmentos de vegetação e criar modelos em que conservação, desenvolvimento e adaptação climática façam parte da mesma estratégia.

Se essas soluções funcionarem em um território tão densamente ocupado, complexo e economicamente relevante, muitas delas poderão ser adaptadas para outros biomas brasileiros e para outras regiões do mundo.

Há ainda uma questão sobre quem participa dessas decisões. A agenda ambiental continua sendo conduzida em espaços de poder pouco diversos. Aumentar a presença de mulheres e a diversidade racial, social, territorial e geracional significa incorporar outras experiências, prioridades e formas de construir respostas para problemas que atingem grupos diferentes de maneiras distintas.

É preciso ainda ampliar os espaços de diálogo para tratar adaptação climática como uma agenda de futuro. Afinal, o debate climático entrou em uma nova etapa. O relatório mais recente do Pnuma indica que a ultrapassagem temporária de 1,5°C já é praticamente inevitável e que, mesmo no cenário mais otimista analisado, o aquecimento pode chegar a 1,8°C antes de voltar a cair. Isso torna ainda mais urgente reduzir tanto a intensidade quanto a duração dessa ultrapassagem. Cada fração de grau e cada ano a mais ampliam os riscos, sendo que parte das perdas pode ser irreversível.

Ondas de calor, enchentes, secas e incêndios já pressionam sistemas urbanos, infraestrutura, produção de alimentos e abastecimento de água e a saúde em diferentes partes do planeta. As respostas construídas para o clima do século passado começam a mostrar seus limites diante das condições deste século.

O Brasil pode ocupar um lugar relevante na construção de soluções. Para isso, precisa transformar sua biodiversidade, seu conhecimento científico e sua experiência acumulada em soluções demonstráveis e capazes de ganhar escala. A Mata Atlântica reúne condições excepcionais para fazer isso.

Uma das maiores contribuições que podemos oferecer à agenda climática é mostrar, na prática, que proteger e reconstruir a natureza não é uma consequência da transição. É parte da solução.

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Por Opinião
postado em 19/10/2026 06:00
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